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Quinta-feira, Setembro 2  



O DIGA MAIS APLAUDE DE PÉ A NOSSA GRANDE MARIA RITA



Maria Rita foi a grande vencedora brasileira do Grammy Latino. A cantora, que concorria em quatro categorias da premiação, por seu álbum de estréia, ganhou nesta quarta-feira (1º) o prêmio de revelação do ano, o troféu de melhor disco de MPB e ainda recebeu, em nome de Milton Nascimento, o prêmio de melhor música brasileira, por "A Festa", composta pelo especialmente para ela.

Maria Rita foi a única artista brasileira a ganhar um Grammy Latino nas categorias gerais, este ano.

"Quando eu era pequena, costuma ver os 'Grammys' com minha família e nós todos sabíamos como isso era importante para todos os artistas envolvidos. E agora eu sou um deles! Obrigada, muito obrigada", disse Maria Rita, em inglês, ao receber o prêmio de melhor álbum de música popular brasileira (MPB) por seu primeiro disco, que leva seu nome.


fonte: http://www.maria-rita.com/





VENCEDORES DO GRAMMY LATINO PARA A MÚSICA BRASILEIRA



Melhor Álbum Pop Contemporâneo Brasileiro
Carlinhos Brown Es Carlito Marrón - Carlinhos Brown
Melhor Álbum de Rock Brasileiro
Cosmotron - Skank

Melhor Álbum de Samba/Pagode
Para Caymmi. De Nana, Dori e Danilo - Nana, Dori e Danilo

Melhor Álbum de MPB
Maria Rita - Maria Rita

Melhor Álbum de Música Romântica
Zezé Di Camargo & Luciano - Zezé Di Camargo & Luciano

Melhor Álbum de Música Regional ou de Raizes Brasileiras
No Século XXI, No Pátio Do Forró - Banda De Pífanos De Caruaru

Melhor Canção Brasileira
A Festa - Maria Rita

Na categoria Música Clássica, o álbum brasileiro Jobim Sinfônico, da Biscoito Fino, com gravações de vários artistas e produção de Mario Adnet e Paulo Jobim, foi o vencedor, ao lado de Carmen Symphony.



O DIGA MAIS LAMENTA A PARTIDA DE TOM CAPONE



Morre em Los Angeles o produtor musical Tom Capone

Globo Online
O Globo

RIO - O produtor e músico Tom Capone morreu nesta quinta-feira, em Los Angeles, em decorrência de um acidente de moto. Ele tinha ido aos EUA para a festa de premiação do Grammy Latino, onde dois discos que produziu, "Maria Rita" e "Cosmotron", do Skank, ganharam prêmios, na noite desta quarta-feira. Capone, que era diretor artístico da Warner Music do Brasil, deixa viúva, a cantora e tecladista Constança Scofield, e um filho de um mês, Bento.

A útima produção de Capone foi o CD da volta do Barão Vermelho, ainda inacabado e deveria produzir a seguir o CD ''Eletracústico'' de Gilberto Gil. O baterista Guto Goffi disse que o grupo tinha acabado de botar os vocais antes da viagem do produtor e o esperava de volta para começar a mixagem. "Estou chocado, muito chocado," disse Guto. "Agora a gente vai ter que terminar e ele não estará lá com a gente," afirmou ele.

Tom Capone recebeu cinco indicações ao Grammy latino por seu trabalho de produção nos discos "O silêncio que precede o esporro" do grupo Rappa, "Sobre nós dois e o resto do mundo", de Roberto Frejat e "Cosmotron" do Skank. Ele também produziu o disco de estréia de Maria Rita e trabalhou com Milton Nascimento, Lenine, Raimundos, Nando Reis e Marisa Monte.


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11:47 PM

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Domingo, Agosto 29  







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8:05 PM

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SEMANA ANTÔNIO CARLOS JOBIM





So long, Tom...

Num dia 8 de dezembro, ele se foi, numa terra estrangeira, num hospital de nome Mount Sinai. E nos deixou a todos, aqui neste país de cabeça pra baixo, com um buraco no peito, tristes, a viver na solidão. Se foi, lá longe do mar de Ipanema que, sem ele pra cantá-lo, jamais será o mesmo mar da praia de Ipanema. Ficamos todos órfãos, viúvas, emudecidos, desconcertados. O canto do Sabiá já não se ouve, a moça que passa a caminho do mar não tem a mesma graça, o jereba já não voa alto. A mata Atlântica não é a mesma mata, o seu verde não é mais tão verde, o matita perê debandou, e Gabriela não tem mais o mesmo cheirinho. O raio de sol nos cabelos de Luíza já não se parte em sete cores, ninguém mais telefona pra Lígia, e desliga porque foi engano A alma já não canta ao ver ao Rio de Janeiro, cadê o cantinho , o violão, o amor e a canção? Não chega a saudade, que de tão forte, e tão doída, não dá nem vontade de cantar... É pedra, é pau, é o fim do caminho, e uma saudade imensa do Tom.

xuxu








Até logo, Tom

Eric Nepomuceno

Lembro agora os telefonemas no final de certas tardes de certos verões de muitos anos atrás: "Venha até aqui, rápido! O dia está propício". E no estúdio envidraçado da casa do alto do Jardim Botânico estava a explicação: era dia propício para ver os micos na jaqueira, comendo jaca.

E lembro também de um domingo de 1976, em outra casa, no Leblon. Perguntei a ele se sabia exatamente porque ia ao piano. Ele pensou um instante e respondeu em voz baixa:

- Acho que é para não morrer, para não desaparecer, para não me transformar em um número. Para não enlouquecer, para fugir.

Ficou olhando o chão, sorriu e acrescentou:

- Acho também que vou ao piano para me matar.

Lembro os almoços preguiçosos das sextas-feiras no Plataforma, que se estenderam ao longo de nove ou dez anos, e as conversas que davam a volta ao mundo, e de repente ele disparava a recitar os parnasianos brasileiros, às vezes saltava tudo e cismava com Manuel Bandeira, sorria e dizia "Pois é, meu caro, nós, os bandeirosos..." E teve o dia que terminou uma frase, ficou olhando o teto e começou a cantar uma canção chamada Bom Tempo, e depois disse: "Que beleza!"

Não sei porque lembro tudo isso agora, mas lembro também, e de repente, da surpresa de meu filho Felipe, que naquela época tinha uns doze anos, ao vê-lo explicando ao garçom, paciente e detalhadamente, como queria o espinafre batidinho à faca e depois passado na manteiga. Terminada a explicação, virou-se para Felipe e advertiu em voz séria, firme e baixa:

- Olhe, Felipe. Eles adoram enrolar a gente e meter margarina em tudo. E o espinafre batidinho, você sabe, exige manteiga.

Lembro um andar meio desengonçado, um jeito eternamente maroto, o rosto iluminado por um ar travesso, sempre pronto para alguma frase arteira. Lembro também uma gorda e gasta bolsa de couro a tiracolo, e os charutos, e o chapéu Panamá.

Lembro a capacidade incessante de criar teorias do nada, mas que eram defendidas com rigor científico.

Lembro seu pavor quando alguém ou alguma coisa ameaçava seu sacrossanto direito a ficar em paz.

Lembro que todos os sábados, por volta de uma da tarde, ele apontava na nossa mesa na Cobal do Leblon.

Achava especialmente divertida a seita de todos os sábados e achava absurda a postura de todos os demais seres humanos, que em pleno sábado cometiam a incongruência de ir a um mercado público para comprar frutas e verduras quando todo mundo sabe que os mercados foram feitos para que os amigos tenham um lugar propício para beber em paz.

Lembro as mãos, os dedos um tanto desajeitados, capazes de tocar as teclas de maneira insólita e assim bordar os acordes mais inesperados e soberanos. Juntava as notas como quem junta todas as almas brasileiras numa só melodia, que na verdade nunca foi uma: foi todas.

Lembro, enfim e para sempre, que pouco depois do meio-dia de uma quinta-feira Fernando Morais ligou de São Paulo dizendo assim: "O Tom morreu". E que depois liguei para o Edu, para o Chico, para o Callado, e contei ao meu filho, e de repente senti que ninguém tinha absolutamente nada a dizer a ninguém, e então deixei de telefonar, escrevi isso que você acabou de ler e saí para a rua, para andar debaixo da chuva, porque era dezembro, é verdade, mas aquela quinta-feira amanheceu com cara de outono.

O que não quero lembrar de jeito nenhum é que há uma fileira de sábados à minha espera. E não quero lembrar, agora nem nunca, que ninguém poderá me devolver os sábados que me restam, e que eles estão desde já mutilados, da mesma forma que mutilado está meu calendário, meu tempo, pois há uma fileira de sábados à minha espera e todos eles serão sem o Tom.
(1994)

Eric Nepomuceno é escritor e jornalista.

fonte: http://www.jobim.com.br/colab/ericnepo/eric.html








Passarim quis pousar, não deu, voou
Porque o tiro feriu mas não matou
Passarinho me conta então, me diz
Por que que eu também não fui feliz
Cadê meu amor minha canção
Que me alegrava o coração
Que me alegrava o coração
Que iluminava o coração
Que iluminava a escuridão
E a luz da manhã, o dia queimou
Cadê o dia, envelheceu
E a tarde caiu e o sol morreu
E de repente escureceu
E a lua então brilhou
Depois sumiu no breu
E ficou tão frio que amanheceu
(Passarim quis pousar, não deu, voou)
Passarim quis pousar não deu
Voou, voou, voou, voou, voou

Passarim, Antonio Carlos Jobim, 1985





site oficial Tom Jobim: http://www2.uol.com.br/tomjobim/


postado por Xuxu

12:07 AM

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Sábado, Agosto 28  


SEMANA ANTÔNIO CARLOS JOBIM





Frases e textos de Tom Jobim



A origem do apelido

"Helena é que me deu o apelido de Tom. Ela não conseguia dizer Antônio Carlos, então me chamava de Tom-Tom, Tom-Tom... Virou Tom. Mais tarde, os caras vieram me dizer que Tom era um nome americano como Johnny Alf ou Dick Farney. Tive que carregar essa cruz. Lutei muito para ser Antônio Carlos, mas não consegui. Ninguém vai chamar um cara de Antônio Carlos se pode chamá-lo de Tom."



Sobre o processo de criação

"As letras são como as músicas. A gente sempre retoca certas coisas, não é? A gente dá sempre uma garibada. Mas muitas vezes ao tentar aperfeiçoar uma canção, você acaba com ela. "You ruin the song trying to perfect it". Você tenta aperfeiçoar o troço de um jeito que ele acaba perdendo a graça. Porque às vezes a graça que tem é essa improvisação. O público também muitas vezes corrige a canção. Você bota uma nota complicadinha, um "psilone", como dizia o Vinicius. Um "psilone" assim meio de lado e depois o público, o povo mesmo, o povão, "endireita" a canção, dá uma nivelada, porque senão fica complicado para o sujeito cantar aquelas notas que são notas do especialista, do profissional."



Tom e suas músicas

"A criação resolve em parte a angústia. Eu acho que quando você faz uma música você dissolve uma depressão. O piano funcionava como espelho na correção de meus defeitos. Procurava uma harmonia, uma coisa boa. Eu não ia fazer uma música para incentivar o suicídio, para arregimentar o ódio, nem para conduzir à droga.

Nós temos uma responsabilidade. Não posso fazer uma música que leve alguém à desgraça. A música tem que levar ao reflorestamento, ao amor aos bichos e à família. Aquele negócio que o Caetano Veloso disse sobre a Bossa Nova: "O Brasil tem que merecer a Bossa Nova". A gente tem que merecer a Bossa Nova: ter uma mulher bonita, ir à praia, talvez um dia ter um barco, navegar num barquinho azul. O conselho da Bossa Nova é de levar a pessoa à vida. Apesar de que todos nós éramos esquerdistas. Todos nós fomos presos pela ditadura militar.

Acho que tenho uma influência maior da música americana do que do jazz, porque era a que tocava no rádio na época. Nós não tínhamos acesso ao jazz. Só os especialistas ou as pessoas muito ricas, que tinham som para ouvir jazz, como o Jorge Guinle."



O encontro com Villa Lobos

"Eu fui algumas vezes à casa do Villa-Lobos, pela mão de Leo Perachi, que era meu professor. O Villa, antes de morrer, pegou o Leo Perachi para escrever as suas músicas. Ele era filho de mãe australiana e pai italiano, um maestro de excelente formação, em qualquer lugar do mundo. Você pegava um livro na casa dele e só tinha música escrita. Em vez de palavra, era partitura o tempo todo. Leo não gostava de letra, letra ele lia no jornal. Villa era moleque, fazia sempre uma molecagem. Quando estreou o Orfeu da Conceição, ele estava vendo aquilo tudo, morava ao lado do Municipal. Eu perguntei se conhecia o Orfeu da Conceição. Villa disse que sim e começou: "Conceição, eu me lembro muito bem...", citando o sucesso do Cauby Peixoto. Villa sabia de tudo, inclusive ele falou com o Cláudio Santoro: "Olha, eu estou partindo, mas os dois que podem me seguir, um é você, o outro é o Tom Jobim. Cuidado com o Tom na canção de câmara, ele sabe escrever, é um perigo".



Luiza

"Ana Luíza foi uma moça bonita que apareceu no Antonio's, num dia que estava chovendo. Ela correu para aquela varandinha do Antonio's. Era uma moça alta, grande, uma grande moça e uma moça grande. Estavam lá Chico Buarque, Carlinhos de Oliveira, uma quadrilha imensa. Chico começou a falar com aquele riso dele, aquelas palavras incríveis e depois a chuva passou e ela foi embora. E ficou o nome. Depois aconteceu que me casei com Ana e mais tarde nasceu minha filha Luíza. E eu fiz uma canção premonitória, aquela "Luíza", boa canção, canção forte. Já me perguntaram se a canção foi feita para ela. Foi feita na casa da Rua Peri, aqui embaixo, a uns 300 metros, e depois Luíza nasceu já aqui na casa da Rua Sara Vilela."



As musas

"Sempre troquei os nomes das musas e ainda dava a maior confusão. Porque se você chamar a musa por outro nome, aparece um outro marido para pedir satisfação. Naturalmente, a Lígia é um punhado de Lígias, de Lídias também. Os maridos ficam sobressaltados. Inclusive a letra de "Lígia" nega qualquer ligação: "Não gosto de chuva, não gosto de sol, não vou a Ipanema, não gosto de samba, não vou ao cinema". É uma Lígia sem contato físico. É ascética, desligada, platônica completamente. "E quando você me prender nos seus braços serenos", ela está sereníssima naturalmente, "eu vou me render, mas seus olhos morenos me metem mais medo que um raio de sol". Ele está louco de paixão, supondo que, se tivesse, teria se jogado pela janela. Supondo que de repente a musa poderia ceder às múltiplas cantadas, às canções e a tudo o mais.

Essa atitude moderna de querer saber se existiu o robe de chambre vermelho, de veludo, do Wagner, eu acho muito pertinente. Talvez o robe de chambre fosse de tafetá. Talvez fosse de veludo, no inverno. Esse negócio não tem importância. Muitas vezes, eu não boto nome de mulher nenhuma. Dorival Caymmi me contou que lá em Ilhéus, ele tinha feito sucesso com "Marina", e chegou um sujeito armado porque a mulher dele era Marina. O sujeito estava convencido de que a canção tinha sido feita para a mulher dele. E o Dorival: "Absolutamente, nem conheço". Você fica sempre devendo uma série de explicações."


fonte: http://www2.uol.com.br/tomjobim/

postado por Xuxu

12:31 AM

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Sexta-feira, Agosto 27  






Este é o título do livro que Helena Jobim lançou em 28 de novembro de 1996, pela Editora Nova Fronteira. O novo livro sobre o maestro é uma biografia com estrutura de romance - Antonio Carlos Jobim contado por sua irmã.

O livro foi lançado num coquetel na Churrascaria Plataforma, no Rio, onde Tom costumava almoçar todos os dias.

O prefácio de Chico Buarque vem na forma de um CD, feito a partir de fitas cassete cedidas por Chico Buarque, contendo músicas que Tom mandava para Chico fazer letra.

Declaração de Chico a Helena: "Tudo que eu fiz na minha vida foi para o Tom."



Trecho: Tom começou a frequentar os bares de Ipanema: Zepelin, Jangadeiro, que se chamava Renânia, e o bar Lagoa, que era o Berlim. No bar Lagoa, uma noite entrou um preto velho que se aproximou da mesa onde Tom estava com os amigos, numa rodada de chopp. Era um vendedor de rosas. Sem hesitar, dirigiu-se a ele. Tirou uma rosa vermelha da bandeja que carregava e lhe ofereceu. Tom recusou delicadamente:

- Não posso. Não tenho dinheiro para rosas

O homem insistiu

- Mas essa é especial. Dê para sua namorada. Como é o nome dela ?

Tom sorriu. Os amigos que o acompanhavam começaram a olhar o preto velho com curiosidade. Apesar do insólito da situação, respondeu:

- Thereza. Quem é o senhor ?...

Seus olhos antigos, neblinados de azul, olhavam serenos para ele. Os cabelos encaracolados eram brancos, a pele do rosto arredondado pura seda, veludo escuro. Usava um smoking puído e gravata com pássaros azuis pintados. Tom nunca esqueceu. A estranheza da figura e aqueles olhos clarividentes. E também o que disse depois, apontando o copo de bebida:

- Seu lugar não é aqui. Sua vida é predestinada. Não se perca.





Do livro de Ruy Castro

"A onda que se ergueu no mar"

Trecho do capítulo "O aprendiz de ternuras":


"Todas as vezes que Tom abriu o piano, o mundo melhorou. Mesmo que por poucos minutos, tornou-se um mundo mais harmônico, melódico e poético. Todas as desgraças individuais ou coletivas pareciam menores porque, naquele momento, havia um homem dedicando-se a produzir beleza. O que resultasse de seu gesto de abrir o piano - uma nota, um acorde, uma canção - vinha tão carregado de excelência, sensibilidade e sabedoria que, expostos à sua criação, todos nós, seus ouvintes, também melhorávamos como seres humanos."
Companhia das Letras, S. Paulo, 2001.





"O trabalho que fiz com Tom Jobim foi um dos que mais me deram satisfação pessoal e profissional em minha carreira. Ele era um gênio e fazia qualquer um que trabalhava com ele sentir-se bem."
Frank Sinatra





"Acho que o Hotel Vogue já tinha incendiado. Era na Princesa Isabel, em frente ao lugar onde eu tocava. Uma vez, fui ali próximo ao Arpoador, no dia em que conheci o Tom. Fomos andando desde o Clube da Chave. Eram 50 sócios, cada um com uma chave. Tinha um piano, do Bené Nunes. Meu encontro com Tom foi no Leme, cedo ainda da noite. Era perto da boate Drink e eu estava naquele café Mooca, cheio de músico. Aí tem o descanso e eles iam naquele bar nessa hora. Tom estava ali, sentado, e se levantou. Menino se conhece assim. Menino chega e começa a conversar. É bom e assim vai logo se conhecendo."
João Gilberto





"Ele era o rei da melodia. Antes do Tom, contavam-se nos dedos as músicas que transmitiam uma certa ternura. Era tudo muito trágico. Conheci o Tom na época em que ele morava num quarto-sala no Posto 6, com o filho pequeno no cercadinho no meio da sala. Foi lá que ele me mostrou uns trechos da Sinfonia do Rio de Janeiro. E eu achei uma coisa bonita, estranha. Ele tinha umas harmonias muito saborosas."
João Donato





"(...) um dia, quando eu estou em casa, de noite, o João Gilberto me ligou e disse: "ô Charles, tem uma pessoa aqui que quer falar com você" e passou o telefone para o outro: "Alô, Carlinhos, aqui é o Tom Jobim, eu sou o outro lado do disco. Olha, a sua música é linda, adorei, um beijo pra você !"
Naquela época não se costumava dizer isso , "...um beijo pra você"... em l955, isso era bem avançado e eu fiquei perplexo".
"(...) Ele (Tom) era muito gozado, ele era muito divertido, não tinha uma vez que você estivesse com ele, que você não morresse de rir, um barato.
E você pergunta o que o Tom é pra mim - o Tom pra mim é uma Universidade Musical, nessa da gente sentar juntos, de trocar idéias... Nossa, o que eu aprendi!"
Carlinhos Lyra

fonte: http://www.jobim.com.br/

postado por Xuxu

12:13 AM

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Quinta-feira, Agosto 26  






Tom Jobim - Conheci o Vinicius mais ou menos em 53, mais de obas e olás. Em novembro de 1956, começamos a parceria. A verdadeira apresentação ao Vinicius foi feita pelo Lúcio Rangel. Foi aí que começamos o trabalho no "Orfeu da Conceição". Minha conhecência com Vinicius de Moraes foi uma coisa ligeira. Os amigos do Vinicius eram bem mais velhos do que eu, mais velhos que o Vinicius. Nós tínhamos uma diferença de 14 anos, mas o Vinicius tinha amigos mais velhos ainda que ele, como Di Cavalcanti, e tinha aquela turma da idade dele, como o Guimarães Rosa.

O Vinicius fez a letra do "Chega de saudade" do meu lado. Ele não gostava de trabalhar sozinho. Preferia trabalhar ao lado do piano. O Chico preferia que eu mandasse a música para ele. No caso do Vinicius, ele também tocava um violãozinho e fazia músicas muito boas. "Valsa de Eurídice", "Medo de amar", "Serenata do adeus", tudo isso é música e letra de Vinicius. Eu simplesmente orquestrei como está lá nos discos. Botei uma coisinha ou outra, umas cordinhas também. A economia não deixava a gente trabalhar com mais de quatro violinos, às vezes nem isso.



A convivência com o Vinicius foi maravilhosa. Aquela amizade, a gente ria, a gente saía, comia umas coisinhas, comidinha de bêbado, como dizia ele. Uns camarõezinhos e aquele uísque todo. Antes de me conhecer, ele bebia chope no Alcazar. Depois, com a ida para o Itamaraty, foi levando a vida no uísque. Vinicius me levou para aquelas casas bonitas do Cosme Velho, aquelas mulheres bonitas, cheirosas. Ele conhecia a alta sociedade do Rio, esse pessoal tradicional.

Normalmente, a gente começava a compor de tarde, nós estávamos ainda na base do café, mas Vinicius de Moraes não gostava muito de café. Conforme a tarde começava a cair, a gente ia fazendo a música, tomava um cafezinho, os dois fumávamos aqueles cigarros todos, tragando aquela fumaça, no apartamento da Rua Nascimento e Silva,107. Às quatro e meia, começava a cerveja. Vinicius, ao contrário do que esse pessoal todo diz, tomou muito chope. Tenho fotografias dele tomando chope.



Se todos fossem iguais a você
Antonio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes

Vai tua vida
Teu caminho é de paz e amor
A tua vida
É uma linda canção de amor
Abre teus braços e canta a última esperança
A esperança divina de amar em paz

Se todos fossem iguais a você
Que maravilha viver
Uma canção pelo ar
Uma mulher a cantar
Uma cidade a cantar
A sorrir, a cantar, a pedir
A beleza de amar
Como o sol, como a flor, como a luz
Amar sem mentir, nem sofrer

Existiria a verdade
Verdade que ninguém vê
Se todos fossem no mundo iguais a você




fonte: http://www2.uol.com.br/tomjobim/textos_frases_3.htm

postado por Xuxu

12:12 AM

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Quarta-feira, Agosto 25  



Conversa Meio A Sério Com Tom Jobim

Clarice Lispector entrevista Tom Jobim




"Minhas sinfonias são inéditas"



Tom Jobim e eu já nos conhecíamos: ele foi o meu padrinho no Primeiro Festival de Escritores, quando foi lançado meu livro A maçã no escuro. E ele fazia brincadeiras: segurava o livro na mão e perguntava: quem compra? quem quer comprar? Para este diálogo, marcamos às seis da tarde: às seis e trinta e cinco tocavam a campainha da porta. E era o mesmo Tom que eu conhecia: bonito, simpático, com um ar puro malgré lui, com os cabelos um pouco caídos na testa. Um uísque na mesa e começamos quase que imediatamente a entrevista.

- Como é que você encara o problema da maturidade?

- Tem um verso do Drummond que diz: "A madureza, esta horrível prenda..." Não sei Clarice, a gente fica mais capaz, mas também mais exigente.

- Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal.

- E mineral também, e vegetal também! (Ele ri.) Acho que sou um músico que acredita em palavras. Li ontem o teu O búfalo e A imitação da rosa.

- Sim, mas é a morte às vezes.

- A morte não existe, Clarice. Tive uma (uma com agá: huma) experiência que me revelou isso. Assim como também não existe o eu nem o euzinho nem o euzão. Fora essa experiência que não vou contar, temo a morte vinte e quatro horas por dia. A morte do eu, eu te juro, Clarice, porque eu vi.

- Tem alguma coisa além do eu, Tom?

- Além de tudo (ri) e vivam os estudantes! Se eu não defender os estudantes, estou desprotegendo meus filhos. Se esse eco do sucesso não nos interessa em vida, muito menos depois da morte. Isso é o que eu chamo de mortalidade.

- Você acredita na reencarnação, Tom?

- Não sei. Dizem os hindus que só entende de reencarnação quem tem consciência das várias vidas que viveu. Evidentemente, não é o meu ponto de vista: se existe reencarnação, só pode ser por um despojamento.

- Para quem você faz música e para quem eu escrevo, Tom?

- Acho que não nos foi perguntado nada a respeito, e, desprevenidos, ouvimos no entanto a música e a palavra, sem tê-las realmente aprendido de ninguém. Não nos coube a escolha: você e eu trabalhamos sob uma inspiração. De nossa ingrata argila de que é feito o gesso, ingrata mesmo para conosco. A crítica que eu nos faria, Clarice, nesse confortável apartamento no Leme, é de sermos seres rarefeitos que só se dão em determinadas alturas. A gente devia se dar mais, a toda hora, indiscriminadamente. Hoje quando leio uma partitura de Stravinsky ainda mais sinto uma vontade irreprimível de estar com o povo, embora a cultura jogada fora volte pelas janelas - estou roubando Carlos Drummond de Andrade.
........

- A criação musical em mim é compulsória. Os anseios de liberdade nela se manifestam.

Liberdade interna ou externa?

- A liberdade total. Se como homem fui um pequeno-burguês adaptado, como artista me vinguei nas amplidões do amor. Você desculpe, eu não quero mais uísque por causa de minha voracidade, tenho é que beber cerveja porque ela locupleta os grandes vazios da alma. Ou pelo menos impede a embriaguez súbita. Gosto de beber só de vez em quando. Gosto de tomar uma cerveja mas de estar bêbado não gosto.

(Foi devidamente providenciada a ida da empregada para comprar cerveja.)



- Tom, toda pessoa muito conhecida, como você, é no fundo o grande desconhecido. Qual é a sua face oculta?

- A música. O ambiente era competitivo, e eu teria que matar meu colega e meu irmão para sobreviver. O espetáculo do mundo me soou falso. O piano no quarto escuro me oferecia uma possibilidade de harmonia infinita. Esta é a minha face oculta. A minha fuga, a minha timidez me levaram inadvertidamente, contra a minha vontade, aos holofotes do Carnegie Hall. Sempre fugi do sucesso, Clarice, como o diabo foge da cruz. Sempre quis ser aquele que não vai ao palco. O piano me oferecia, de volta da praia, um mundo insuspeitado, de ampla liberdade - as notas eram todas disponíveis e eu antevi que se abriam os caminhos, que tudo era lícito, e que se poderia ir a qualquer lugar desde que fosse inteiro. Subitamente, sabe, aquilo que se oferece a um menor púbere, que o grande sonho de amor estava lá e que este sonho tão inseguro era seguro, não é, Clarice ? Sabe que a flor não sabe que é flor. Eu me perdi e me ganhei, enquanto isso sonhava pela fechadura os seios de minha empregada. Eram lindos os seios dela através do buraco da fechadura.

- Tom, você seria capaz de improvisar um poema que servisse de letra para uma canção?

Ele assentiu e, depois de uma pequena pausa, me ditou o que se segue:

Teus olhos verdes são maiores que o mar.
Se um dia eu fosse tão forte quanto você
eu te desprezaria e viveria no espaço.
Ou talvez então eu te amasse.
Ai! que saudades me dá da vida
que nunca tive!



- Como é que você sente que vai nascer uma canção?

- As dores do parto são terríveis. Bater com a cabeça na parede, angústia, o desnecessário do necessário, são os sintomas de uma nova música nascendo. Eu gosto mais de uma música quanto menos mexo nela. Qualquer resquício de savoir-faire me apavora.

- Você é quem escolhe os intérpretes? e os colaboradores?

- Quando posso escolher intérpretes, escolho. Mas a vida veio muito depressa. Gosto de colaborar com quem eu amo, Vinícius, Chico Buarque, João Gilberto, Newton Mendonça, Dolores Duran.

- Vou agora lhe fazer as minhas três perguntas clássicas. Qual é a coisa mais importante do mundo? Qual é a coisa mais importante para a pessoa como indivíduo? E o que é o amor?

- A coisa mais importante do mundo é o amor. Segunda pergunta: a integridade da lama, mesmo que no exterior ela pareça suja. Quando ela diz que sim, é sim, quando ela diz que não, é não. E durma-se com um barulho desses. Apesar de todos os santos, apesar de todos os dólares. Quanto ao que é o amor, amor é se dar, se dar, se dar. Dar-se não de acordo com o seu eu - muita gente pensa que está se dando e não está dando nada - mas de acordo com o eu do ente amado. Quem não se dá, a si próprio detesta, e a si próprio se castra. Amor sozinho é besteira.

- Muitas vezes, nas criações em qualquer domínio, pode-se notar tese, antítese e síntese. Você sente isso nas canções? Pense.

- Sinto demais isso. Sou um matemático amoroso, carente de amor e de matemática. Sem forma não há nada. Mesmo no caótico há forma.

- Quais foram as grandes emoções de sua vida como compositor e na sua vida pessoal?

- Como compositor nenhuma. Na minha vida pessoal, a descoberta do eu e do não-eu.

- Qual é o tipo de música brasileira que faz sucesso no exterior?

- Todos os tipos. O velho mundo, Europa e Estados Unidos estão completamente exauridos de temas, de força, de virilidade. O Brasil, apesar de tudo, é um país de alma extremamente livre. Ele conduz à criação, ele é conivente com os grandes estados de alma.

entrevista na íntegra em: http://www.geocities.com/Paris/Concorde/9366/entrevistas/tom.htm



postado por Xuxu

12:33 AM

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Terça-feira, Agosto 24  




Quantos tons tem Tom?

Um Tom que gosta do mar e do mangue, que canta o sabiá e o urubu com o mesmo amor e igual respeito e delicadeza, um Tom que se espanta e deslumbra com essas coisas tão prosaicas quanto uma pedra, um pau, um sapo, uma rã, um Tom mágico, que com um jogo de palavras, e o toque de seus dedos nas teclas do piano, transforma o banal no extraordinário...



Águas de Março

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o Matita Pereira

É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira

É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho

É um estrepe, é um prego, é uma conta, é um conto
É uma ponta, é um ponto, é um pingo pingando
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama

É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

para ouvir àguas de Março - http://www.samba-choro.kit.net/musicas/aguasmar.mp3





Em diferentes depoimentos, Tom Jobim narrou em que situação a canção, "Águas de Março", foi composta. Ele estava em seu sítio no Estado do Rio, numa casinha provisória na beira do caminho, apelidada de "barraco 2", enquanto construía uma maior no alto do morro. Havia comprado madeiras de lei, vigas imensas descarregadas por caminhões, deitadas ao relento, ao lado de pedras e tijolos, num terreno enlameado.

Exaurido de tanto trabalhar em "Matita Perê", quando sua mulher foi se deitar, começou a cantarolar: "É pau, é pedra, é o fim do caminho". Da cama, ele comentou que o tema era lindo. Então, ele pediu lápis e papel. Arranjou um papel de embrulhar pão, no qual o compositor rabiscou a letra "Águas de Março".

"Águas de Março" (1972) está para Tom Jobim como "Construção" (1971) para Chico Buarque. Ambos compõe em cima dos ritmos do Campo e da cidade, demonstrando um alto grau de maturidade no trato com as palavras, atingindo um patamar raramente alcançado por seus contemporâneos. Antonio Carlos Jobim tinha 45 anos de idade quando compôs "Águas de Março".

(fonte: http://www.sambossa.com.br/musicas/hist/aguamar/aguamar1.htm )



postado por Xuxu

1:29 AM

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Segunda-feira, Agosto 23  



foto: Ana Jobim



Eu vos saúdo

Edu Lobo, você é um compositor maravilhoso! Uma coisa louca! Ainda me lembro quando o teu pai Fernando me disse: "Tem um garoto lá em casa tocando um violão"

Depois te conheci, magrelo, cerrando o buço, a face inocente, a boca jovem, tímido, violão na mão, espichando, crescendo rápido para se tornar o grande compositor, violonista, pianista, cantor, poeta, letrista, arranjador, orquestrador e maestro Eduardo de Goes Lobo. Predestinado e estudioso. Noturno, entra pela noite compondo e mais tarde, creio, será um madrugador jovial, an early bird.

Sua música, muito bem feita, tem cheiro de mato, às vezes de mar, como no Arrastão, cheiro de mar bem brasileiro. Pra dizer adeus, Upa neguinho, Ponteio, Marta Saré, Viola fora de moda, Reza, Canção do amanhecer, Canto triste, Vento bravo, são tantas e tão bonitas as canções, sambas, frevos, xaxados, baiões, achados, choros, valsas, modinhas.

Edu escreve música muito bem, a mão, a tinta. Este songbook foi todo escrito a mão, tarefa gigantesca!

Mais recentes são as parcerias com Francisco Buarque de Holanda, Chico Buarque, outro gênio da raça. Choro bandido, Valsa brasileira, Beatriz, lindíssimas!

Olhos de jabuticaba, saídos do mato. Juruva do mato virge, coati mundéu, onço velho da mata atlântica que, do mato, espia o mar. Pescador, nadador, ginástico, carioca nordestino, pernambucano, tanta coisa, sangue de índio, há mais de 60.000 anos no Brasil (segundo o grande sertanista Orlando Villas-Boas). Teu destino, traçado.

Eu vos saúdo em nome de Heitor Villa-Lobos, teu avô e meu pai.

Um Antonio Brasileiro

Tom Jobim

Rio, 12 de dez. 92




Edu, você amadureceu, refinou, aprimorou o seu talento com o tempo. Se na juventude você compôs Arrastão, Ponteio, Upa, Neguinho, Canto Triste, e tantas outras, agora, na maturidade, cria Beatriz, e todas as belíssimas canções do Grande Circo Místico. Por isso, Edu, há muito ainda o que fazer.

Tá na hora, não, menino. O piano, o violão, as partituras, e o seu público, em uníssono, clamam por você.

Nós, do Diga Mais, saudamos a você também, Edu, e desejamos que você fique bom logo!


postado por Xuxu





Luiz Roberto Oliveira entrevista Chico Buarque
(entrevista na íntegra em http://www.jobim.com.br/chico/chico.frame.html )

Bate boca
Chico Buarque: O caso do "Bate boca", essa música inédita, até agora eu não sei o que eu faço, porque vou sentir falta do Tom implicar comigo, quando fizer alguma letra, entende... porque o Paulinho (Jobim) falou: - Mas você não vai fazer o "Bate boca" ?, e tal...
Quando ele me deu a fita do "Bate boca", a letra estava quase toda pronta. Eu disse: "Tom, faz você essa letra"... E ele: "Não, você tem que terminar, tem que dar um jeito na letra."

LO: Ah, o Tom já tinha feito um esboço dessa letra?
CB:: Tinha, naqueles cadernos em que ele escrevia, e cada vez que ele cantava, ele dizia umas coisas: (cantarola) "Você não quiz, você não diz, você não é..."
Eu lembro dele cantando com vários pedaços de letras, e eu disse: "Tom, é só você juntar... pede para alguém organizar essa letra para você, que ela está pronta..." E aí ele ficava me provocando para terminar a letra, mas eu não mexi nela.
É engraçado... porque com o Tom eu tive esse tipo de problema que nunca tive com nenhum outro parceiro, mas hoje, ele não estando aqui...

LR: Você sente falta.
CB: Eu digo, um cara para implicar com minha letra, para mexer, para recusar, para... ele fazia isso porque ele era danado - eu lembro de "Sabiá", a polêmica do "Sabiá" no feminino...

LR: Uma sabiá...
CB: Ele falava: é bom "uma sabiá", porque é linguagem de caçador... caçador não fala um sabiá, fala uma sabiá, uma gambá... e depois, ele gravou "O meu sabiá". (risos)
Ele cantava: "Minha sabiá... o meu sabiá..." O Tom era muito engraçado e eu morria de rir com ele.
Talvez isto escrito pareça uma briga, mas era impossível brigar porque eu achava graça nessas implicâncias dele... era uma coisa de birra meio infantil, então eu achava graça daquele homenzarrão implicando com "Mandei subir meu piano na mangueira" ... (risos)... porque eu sabia que era uma coisa de pirraça, de birra mesmo, e era muito engraçado isso nele.
No tempo do "Retrato branco e preto", ainda havia aquela cerimônia, e se ele tivesse falado qualquer coisa, eu ficaria arrasado - e talvez percebendo isso, ele nunca falou nada, ele aceitou como era...
E mais adiante sempre houve uma intimidade, um certo conflito. Vai ver que é por isso que o Vinicius deixou de...

LR: Vinicius passou o abacaxi para você...(risos)
CB: Passou esse abacaxi... vai ver que foi...



I hate music !
O Tom era muito ligado em letra, em literatura. Ele dizia: - Sou um literato... "I hate music !"
LR: Ele dizia isso ?
CB: Ele gostava de dizer isso. Era difícil falar de música com o Tom... eu falava de todos os assuntos, menos de música.

LR: Eu nunca consegui falar sobre música com o Tom por mais de dez minutos.
CB: Pois é, ele não gostava de falar de música... eu nunca vi ele falando de acordes, por exemplo, e também não falava de política.

LR: Política ele detestava...
CB: Detestava. E adorava literatura - ele era capaz de recitar trechos inteiros de Guimarães Rosa, poemas de Drummond, T. S. Eliot, "Terra desolada", textos inteiros que ele sabia de cor. Então, ele tinha muita ligação com a parte literária das canções.





LR: Chico, eu quero que esta nossa entrevista se chame "Meu Maestro Soberano".
CB: Eu adoro que você coloque esse nome. No Jardim Botânico tem uma árvore grandona, enorme, chamada Sumaúma ou coisa parecida, de que ele gostava muito, que ele abraçava. Puseram lá uma placa: "Maestro Soberano - Tom Jobim". E depois ele deu ao último disco dele o nome de Antonio Brasileiro, que é como eu o chamo nessa música.

LR: Essa sua letra me toca profundamente.
CB: E era uma brincadeira com ele o tempo todo, ele tinha um pouco essa mania: "O meu pai era gaúcho, o meu avô era de Leme, em São Paulo, o meu bisavô era cearense, e eu sou até primo de Vinícius".
Aí eu comecei essa letra lembrando: "O meu pai era paulista, meu avô pernambucano..." e desembocou nele.





O Tão
CB: Eu chamava o Tom de Tão, e ele falava: "O pessoal na roça me chama de Tão, lá em Poço Fundo."
LR: O (Leo) Peracchi também o chamava de Tão. "Porque o Tão é um bom menino, o Tão faz umas músicas bonitas."



Imagina
CB: O Tom dizia que era difícil fazer letra para Imagina, porque a música tinha sido composta como instrumental. Era quase impossível botar letra naquelas notinhas todas - na verdade, não era adequada para letra. Mas a gente estava fazendo a trilha de um filme, e eu resolvi fazer a letra pra essa música. E era dificil mesmo, mas consegui fazer. Ele estava em Nova York quando recebeu essa letra, e mandou um telegrama dizendo: " It's very exquisite !" Mas no fim, ele gostou muito do resultado.

LR: É uma bela letra, música lindíssima. Depois veio "Anos Dourados" - e o "Piano na Mangueira" foi a última que você fez para o Tom. Contam as más línguas que você demorou para fazer a letra de "Anos Dourados".
CB: É verdade, atrasei, mas eu não sou muito rápido não. "Anos Dourados" era pra ser tema de uma mini série com o mesmo nome, e entrou sem letra porque a letra não ficou pronta. Depois que a mini série saiu do ar, é que a letra apareceu.
(risos)

LR: Valeu a pena esperar, sem dúvida.
CB: (brincando) A mini série é que foi precipitada...



Olhando por cima do ombro
LR: O que é o Tom para você ? O que ele representa ? Na música, como pessoa, como amigo ?
CB: Para mim como artista criador é um buraco, uma falha muito grande, a ausência do Tom. Agora que eu estou voltando a fazer música depois de uns dois anos, eu procuro ressuscitar um pouco o Tom ao meu lado...
Às vezes eu tenho a impressão de que ele ainda está por aí, de que ele não vai me abandonar.

Eu disse num momento de emoção: "Tudo que eu faço é para o Tom", e realmente isso saiu de forma impensada, mas é uma verdade. Tem um poema de João Cabral (de Melo Neto) que fala numa pessoa que estaria por cima do seu ombro, vendo o que você está escrevendo - o Tom é muito isso. Muitas coisas que eu escrevi, músicas que eu fiz, eu tinha a impressão, ou gostaria, que o Tom estivesse por cima do meu ombro vendo aquilo, aprovando ou não. Mesmo porque já mais pro fim da vida o Tom não tinha mais muita paciência para ouvir coisas novas, e eu já não tinha muita esperança, já não tinha muito desejo ou intenção de mostrar música nova pro Tom, mas a existência dele ali valia como uma referência. Eu pensava: se o Tom tivesse paciência de ouvir essa música, ele gostaria. Com a ausência dele você tem uma noção mais clara do que ele representava.




postado por Xuxu

12:49 AM

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Domingo, Agosto 22  




O que dizer de Tom Jobim? Eu poderia dizer que é o mestre, o maior de todos, o homem que tinha o dom de fazer coisas complicadíssimas soarem simples, e as coisas simples soarem como verdades insuspeitadas. Poderia ainda falar do homem surpreendente, do poeta das notas, dos acordes, e das palavras raras que ia catar nos dicionários, do garimpador de nomes dos passarinhos um maestro orquestrando palavras. Tudo em Tom é singelo e grandioso, é original e único, e é verdadeiro. Mesmo uma bobagem dita pelo Tom se transforma numa pérola de sabedoria, numa revelação.

E o que dizer da música do Tom, eu que não sou músico? Diria que cada nota, cada acorde, cada harmonia faz vibrar em mim uma sensação do mais puro deleite, que as notas de Tom tocam, vibram na minh'alma, e fazem mais bela a vida. Diria que, do mesmo modo que as refinadíssimas harmonias de Tom penetram azeitadas nos meus ouvidos, percorrendo facilmente o trajeto neuronal, sensório e extra-sensório, como se simples fôssem, produzem esse mesmo efeito nos ouvidos mais e nos menos educados para a música. Nisso está a maestria do gênio fazer do difícil o fácil, do complexo o simples Mas é pouco, é muito pouco pra ilustrar ou descrever o que é Tom, a música do Tom. Tom é mais, é muito mais!




Disse dele o grande poeta Drummond:
(texto na íntegra em http://www2.uol.com.br/tomjobim/textos_depoimentos_1.htm)


(...) ..."Tom Jobim, deputado eleito pelos sabiás, canários e curiós para falar, não aos povos da Zona Sul, mas a toda criatura capaz de ouvir e de entender pássaros, trazendo-nos uma interpretação melódica da vida. Isso que ele faz tão bem, cativando a todos. Ou a quase todos, pois seria vão esperar que os amantes do barulho erguido à categoria de música estimassem o antibarulho, o refinamento do som organizado em fonte de prazer estético e explicação do homem por si mesmo. O som de Tom, o som que uma fada (iara, sereia, camena?) lhe deu há 50 anos, presente das matas da Tijuca ao futuro morador do Leblon, ao mais despreocupado dos mestres, e por isso também o mestre que é mais agradável reverenciar.

Salve, Tom, em claro e meigo Tom!?"

Carlos Drummond de Andrade


Eu endosso, e acrescento às palavras de Drummond: te amo, Tom. Obrigada.


postado por Xuxu

2:53 AM

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Sábado, Agosto 21  


Terminamos hoje a semana Chico Buarque de Hollanda. Foi uma deliciosa honra para o Diga Mais falar mais detalhadamente deste nosso imenso e eterno compositor.

Amanhã começamos a semana do maravilhoso Antônio Carlos Jobim. Tom, o sublime maestro de Ipanema.

Para finalizar:



Chico Buarque de Hollanda, o inexplicável anjo poesia que não gosta de ser chamado de poeta, que se acha melhor romancista que letrista, que teria como primeira opção ser jogador de futebol. Chico múltiplo, belo homem no menino triste, bom, safado, alegre, angustiado. Chico individual, que encontra a história sufocada na alma do irmão e escreve para ele sua catarse. Chico cidadão brasileiro, polêmico mas avesso à violência, que plantou sementes em exílio e venceu a censura levantando mais alto a liberdade da palavra. Chico amedrontado, que invariavelmente tem dor de barriga quando começa um show, que muitas vezes precisa ser literalmente empurrado para o palco, que chega ao microfone com um meio sorriso e desperta o sorriso largo na alma de todos nós. Chico que agora troca no camarim o whisky pela maçã, que se apavora quando pedem bis, que se entristece quando erra a letra, que se intimida por provocar lágrimas de emoção, que se encanta com os aplausos. Chico rígido em seu trabalho, leve em seus dias passeados nas calçadas da praia, cabeça alta recebendo uma brisa exclusiva, certamente por deuses soprada. Chico que suavemente invadiu o universo da mulher, que se encolhe no útero de cada uma, que incorpora o sentido feminino e canta o grito de suas vozes. Chico que ri quando questionam a cor dos seus olhos, que apenas olha, e nos dá a tonalidade mais exata do poema. Chico que será sempre da Marieta, das suas meninas, do neto Francisco, dos malandros, dos operários, das costureiras das escolas de samba, dos meninos dos sinais, dos apaixonados, dos futuros amantes. Chico vitalidade e energia, inteligência e simplicidade, terno e paradoxo, constante inspiração. Chico imperdível, imprevisível, surpreendente na metáfora seguinte, lírico, subliminar, legítimo. Chico aqui, lá, nas varandas dos humildes, aí, nas coberturas, nos botequins, nas favelas, em Paris, nos vinhos de Roma, nas gramas do futebol, nas rodas das crianças.

Chico Buarque de Holanda a mágica essência que flutua, que desenha o tempo do tempo e permanece.

Chico barco sereno, pedaço de vida atracado no porto de todos nós.


postado por kk

8:44 PM

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Sexta-feira, Agosto 20  


Esta semana falamos de Chico Buarque de Hollanda






Fala, Chico Buarque
(continuação da entrevista do post abaixo)

Chediak: Como é que o Tom recebia as suas letras?
Chico: Ele era muito engraçado e muito crítico também. Quando o Quarteto em Cy ia gravar Retrato em branco e preto, tirei do verso "eu tenho o peito tão marcado de lembrança do passado" o "tão marcado" e mudei para "carregado de lembrança". Expliquei ao Tom que o "tão" era uma muleta para completar as sílabas da canção. Ele disse, concordando: "Você é um craque." Depois, ele telefonou, pedindo para deixar como estava: "Esse 'eu tenho o peito carregado' tem outra conotação." "Qual?", perguntei. "É que 'peito carregado' pode ser uma tosse."

Chediak: Imagina foi uma das primeiras melodias que ele criou. Como foi fazer uma letra para ela?
Chico: Foi engraçado porque Tom dizia que não era uma música para ter letra, que era impossível letrá-la. Falei: "Vou topar o desafio, posso?" Ele disse que eu não conseguiria. Mas eu precisava da música porque estava fazendo a trilha de um filme do Miguel Farias, Para viver um grande amor. Fiz a letra sem mudar nada na música. Nota por nota, está tudo ali. Ele nem implicou porque viajou logo para os Estados Unidos. Como eu precisava da aprovação dele para gravar, mandei a letra para ele e fiquei aguardando a resposta, que veio num telegrama com duplo sentido: "Very exquisite". É que, em inglês, exquisite é bom. Aliás, em todas as línguas, menos em português, exquisite é uma coisa boa, rara. Em português, tem um sentido de estranho. Acho que considerou a letra estranha e, realmente, ela é estranha. Mas ele gostou.

Chediak: O que foi que houve com Wave?
Chico: Ele me mandou a música, que adorei, e comecei a fazer a letra. Escrevi logo: "Vou te contar". E o resto não saía. O tempo passou e Tom ia perdendo a paciência: "Ô Chico! Você não sai do 'vou te contar'? Não quer ficar rico?" Ele sabia que a música iria fazer sucesso e foi realmente um grande sucesso internacional. Acabei desistindo e ele fez a letra. Várias músicas dele - como Nuvens douradas, Rancho das nuvens - passaram por mim e as letras não saíram.

Chediak: Depois, você passou a fazer letra também para o Francis Hime.
Chico: Foi em meados dos anos 70. Tom até ficou um pouquinho "mordido". Fiz letra também para o Sivuca.

Chediak: Antes disso, você foi para a Itália.
Chico: Fui lançar um disco. Chegando a Roma, fui aconselhado a não voltar, porque no Brasil as coisas estavam muito difíceis. Nem pensava em ficar, porque minha mulher estava grávida de Silvinha e eu queria que ela nascesse aqui. Aluguei um apartamento e Silvinha nasceu lá. Fui ficando e acabou saindo um outro disco com versões de Sérgio Bardotti para o italiano. Depois, fui eu que fiz as versões das músicas de Bardotti para Os saltimbancos, que Antônio Pedro adaptou para o teatro.

Chediak: E a censura, Chico?
Chico: Às vezes, a censura proibia uma música inteira e o advogado da gravadora corria para Brasília. Muitas vezes, o advogado telefonava de lá para dizer que, se mudasse tal palavra, a música estaria liberada. Quase sempre era uma bobagem, como em Partido alto, em que "titica" virou "coisica", "brasileiro" virou "batuqueiro", coisas assim. Era o preço para o disco sair. Naquele disco que gravei ao vivo com Caetano Veloso, a gravadora teve que botar aplauso para esconder uma palavra proibida. O aplauso ficou evidentemente falso.

Chediak: E Vinicius, Chico? Como você via o Vinicius de Moraes?
Chico: Eu não via o Vinicius. Eu queria ser o Vinicius, que conhecia desde criança, porque ele era amigo do meu pai. Queria ser o Vinicius, com mulheres bonitas, tomando aquele uísque, tocando violão, fazendo poesia. Não queria mais nada. Quando veio a Bossa Nova, aumentou meu fascínio e veio uma admiração muito grande.

Chediak: E você acabou parceiro dele. Como foi que vocês fizeram Valsinha?
Chico: Nós estávamos na Argentina, onde Vinicius fazia muitos shows com Toquinho. Maria Bethânia também estava lá. Vinicius me deu uma fita com a música, que eu trouxe para o Brasil e mandei a letra por carta. Ele queria que a música se chamasse Valsa hippie, mas não gostei e sugeri Valsinha, um nome que tinha mais a ver com ele, que usava tudo no diminutivo. Era "mulherzinha", "uisquinho" etc. Fizemos também Olha, Maria, Gente humilde, Desalento e Samba de Orly.

Chediak: Dos compositores antigos, quais foram os que mais o influenciaram?
Chico: Ouvia muito Noel Rosa, Ary Barroso, Ismael Silva, Ataulfo Alves, Dorival Caymmi, uma porção deles. Ouvia muito um disco de duetos do Mário Reis com o Francisco Alves. Ouvia também aquelas operetas do cinema, tipo O príncipe estudante. E gostava das músicas americanas com Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, das músicas de Cole Porter.

Chediak: Quando começou sua parceria com Edu Lobo?
Chico: Já nos anos 80. Escrevi pra ele a letra de Moto contínuo e depois fizemos O grande circo místico, com um roteiro do Naum Alves de Souza, baseado num poema de Jorge de Lima, a pedido do corpo de baile do Teatro Guaíba, de Curitiba. Na verdade, a parceria com Edu vinha sendo adiada desde os anos 70. Edu fez os arranjos do disco Chico canta. Depois do Grande circo místico, veio O corsário do rei e outro balé chamado A dança da meia-lua. Foram três projetos. Edu foi o parceiro com quem fiz o maior número de músicas. Prezo muito a nossa parceria.

Chediak: Qual o processo que você adota para compor esta obra maravilhosa?
Chico: Há a criação de parceria e a criação solitária. São processos diferentes. Quando recebo a música do parceiro, faço a letra sem interferir numa nota sequer. Mas quando a música é minha, vou mudando. Muitas vezes, a música já vem anunciando as palavras. Pelo som, pela musicalidade, aparecem palavras que vão puxar o resto da letra e me obrigam a mudar a música. Quando sou eu que faço, a música é sempre maleável.

Chediak: Já aconteceu de "baixar o santo", ou seja, a música ficar meio pronta imediatamente?
Chico: Quando esse "santo" baixa, vem com uma idéia qualquer, um estalo. Depois, vem o trabalho e muitas vezes o trabalho vai até depois da gravação. Um disco meu já estava sendo prensado quando descobri que precisava substituir uma palavra em O futebol. A palavra que entrou foi "anular", mas não me lembro da que saiu. O fato é que tiveram de parar a prensagem e alterar a capa por causa de uma única palavra. Aquela troca era uma coisa muito importante, muito preciosa pra mim. No disco As cidades, aconteceu uma história diferente. Tinha a idéia da letra, mas a música não saía. Me lembrei então de uma música que Dominguinhos havia me mandado em 1983. Saí atrás da fita e ela estava guardada na gaveta. Acabei compondo Xote de navegação. Quer dizer: levamos 15 anos para compor a música. Só Dorival Caymmi seria capaz de levar tanto tempo compondo uma música.

Chediak: Você já compôs dormindo? Não sou compositor, mas me lembro que um dia acordei com uma música que havia criado enquanto dormia.
Chico: Aconteceu, mas nada que prestasse. Há pouco tempo mesmo, contei pro Sérgio Ricardo que havia sonhado com ele. O sonho era o seguinte: eu estava num carro, ligava o rádio e ouvia o Sérgio Ricardo cantando uma música. Acordei do sonho com a música inteira na memória, mas fui esquecendo aos poucos. De manhã, não me lembrava de mais nada. Ficou apenas um verso que dizia assim: "Tem livro muito bom, tem livro muito pau." Com o verso, ficou também uma sugestão de título: Samba da biblioteca.

Chediak: De certa maneira, seria uma parceria com Sérgio Ricardo.
Chico: Quando Ruy Guerra e eu fazíamos as músicas da peça Calabar, saiu uma típica marchinha de carnaval, Boi voador não pode. Por isso, convidamos um cantor especialista em músicas carnavalescas para gravar. Mas ele pediu parceria. "Como assim?", perguntei. Hoje não é mais assim, mas o que ele disse ainda fazia sentido naquele tempo. O compositor fazia a música carnavalesca, mas era o cantor que saía em campo para trabalhar na divulgação, aparecendo nas emissoras de rádios, nos bailes, aonde pudesse ir para divulgar a música. No final das contas, quem ganhava dinheiro era o compositor, que faturava os direitos autorais. Mas não podíamos dar parceria. Era uma música de uma peça de teatro e todas as músicas eram assinadas por mim e pelo Ruy Guerra.

Chediak: Escrever um livro e compor, o que é mais difícil?
Chico: Com toda a certeza, fazer música com 20 anos de idade é mais fácil. Agora, um livro é como se fosse uma canção enorme, longa, que toma cada dia, durante um ano ou um pouco mais. Mas quando estou compondo, fico tomado pela música.

postado por kk - pesquisa net


2:02 PM

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Fala, Chico Buarque

Se fosse feita uma investigação para identificar os brasileiros que mais produziram na área cultural, desde a década de 1960, o nome de Chico Buarque de Holanda, certamente, seria um deles. O volume de obras deste Songbook - o maior entre todos os Songbooks - não deixa a menor dúvida. São centenas de músicas, sem contar a sua atividade como escritor de livros, autor teatral e sua presença nos palcos do Brasil. Se a obra musical de Chico impressiona pela quantidade, impressiona muito mais pela qualidade.

Um criador do seu nível também tem muito a dizer, razão pela qual apresentamos a maior das entrevistas já publicadas em Songbooks. Chico Buarque tem muito a dizer.

Almir Chediak: Para começar, gostaria que você falasse dos seus primeiros contatos com a música. Como é que foi isso?
Chico Buarque: A lembrança mais remota é a dos meus pais cantarolando músicas antigas, como Último desejo, por exemplo, na casa em São Paulo, na rua Hadock Lobo, onde morei até os oito anos idade. Em 1952, a família foi toda para Roma, mas me lembro também que, antes da viagem, eu ouvia rádio.

Chediak: Que rádio? A Nacional?
Chico: Possivelmente. O rádio era da minha babá, ou melhor, da babá dos sete filhos dos meus pais e depois virou cozinheira. Acho que era a Nacional mesmo, porque um dos programas que a gente ouvia era aquele do primo pobre e do primo rico, o Balança mas não cai. Mas havia muita música, principalmente os sambas e as marchinhas de carnaval, que eu gostava muito. Me lembro da Linda Batista, do Blecaute, da Marlene, da Zilda do Zé, todos eles cantando músicas de carnaval. Depois, na quaresma, mudava a programação e entrava a música de meio de ano, como era chamada. Era samba-canção, bolero, mas que gostava menos disso.

Chediak: Você não ouvia disco?
Chico: Antes da viagem para Roma, minha irmã Miúcha ganhou um vitrola, ainda daquelas de dar corda. Não era elétrica não. Quando a gente voltou para São Paulo, dois anos depois, apareceu lá em casa um novo móvel, que, na verdade, era um toca-discos da marca Telefunken. Naquele aparelho ouvi Sílvio Caldas, Ataulfo Alves, Elizeth Cardoso, Roberto Luna, Frank Sinatra, Inks Spots, Lucho Gatica, Trio Los Panchos e mais uma porção de gente. Minha mãe adorava Edith Piaf. Tinha também um disco do Jacques Brel.

Chediak: E o primeiro contato com o violão, como foi?
Chico: Foi bem mais tarde. O primeiro violão que apareceu lá em casa era da Miúcha, que tinha um ciúme danado do instrumento. Não deixava nem a gente chegar perto. Depois, minha irmã Ana apareceu com outro violão grená, esquisito, que não produzia som nenhum e não dava a menor vontade de tocar. A gente chamava o violão de "catupiri". Miúcha começou a reunir os irmãos, distribuía as vozes e formava um coral para ela acompanhar no violão. Eu não cantava. Quem participava do coral eram os meus irmãos.

Chediak: E quando foi que você acabou pegando o violão?
Chico: A partir da Bossa Nova. Quando apareceu Chega de saudade, foi um choque tremendo, me lembro perfeitamente. Ficava horas, a tarde inteira ouvindo aquilo, ouvindo, ouvindo, ouvindo... Conhecia o violão de João Gilberto desde o disco da Elizeth Cardoso, Canção do amor demais, um disco que freqüentou muito a Telefunken dos meus pais. João tocou violão em duas faixas, Outra vez e Chega de saudade. Mas a gravação de João Gilberto era diferente. Eu nem sabia que Chega de saudade era do Tom Jobim, tanto que, ao pedir dinheiro aos meus pais para comprar o disco, disse que a música era do Vinicius de Moraes, o autor da letra e amigo do meu pai. Nem me ocorreu que a música era do mesmo autor (com Billy Blanco) de Teresa da praia, um disco que eu havia comprado para dar de presente à Miúcha. Era aquela gravação com Dick Farney e Lúcio Alves.

Chediak: Foi João Gilberto quem detonou tudo.
Chico: Detonou tudo! Ouvia Chega de saudade sem parar. Eu e um amigo meu de rua ficávamos ali, com violão, tentando decifrar a batida e as harmonias de João. Quando saiu o primeiro long-play do João Gilberto, a gente repetia Aos pés da cruz não sei quantas vezes na tentativa de fazer aquela introdução.

Chediak: Também passei por isso, Chico.
Chico: Por morar em São Paulo, eu levava uma desvantagem em relação ao pessoal do Rio. Não havia televisão na minha casa. De vez em quando, chegava um amigo, dizendo: "Vi aquele cara esquisito que você gosta na televisão." João Gilberto apareceu como uma coisa misteriosa. De vez em quando, um amigo perguntava: "É verdade que ele é viado?" "É viado", garantia outro. Ele era diferente de tudo até para um jovem de 18 anos. Eu tinha 14 anos e, na época, ter quatro anos a menos significava uma diferença brutal. Acho que, por isso, João pegou muito o pessoal da minha idade. Aliás, o que estou falando é comum ao pessoal da minha geração. Já vi o Gil, o Caetano, o Edu, todo mundo falando onde estava quando ouviu Chega de saudade pela primeira vez. Foi demais pra todo mundo. Quem não tinha aquela idade não estava na hora certa, no lugar certo, talvez não fosse capaz de perceber. Ou era mais velho, já não estava na idade de ser, vamos dizer, fulminado por um tipo de coisa assim, ou era muito novo para se interessar por aquilo. Conversei com pessoas que tinham, na época, 10 anos de idade e elas disseram que não entenderam nada.

Chediak: João Gilberto revolucionou. Aquele batida no violão...
Chico: Eu criticava minha irmã porque ela tocava violão "bossa velha". Não gostava daquilo, eu só queria saber de bossa nova. Durante alguns anos, fui um seguidor fanático da bossa nova. Reneguei tudo aquilo que havia escutado antes. Engraçado é que, pouco antes disso, gostava muito de Elvis Presley, Little Richards, essa coisa toda. Gostava também de Frank Sinatra, das orquestrações de Nelson Riddle, ouvia discos de jazz na casa de um amigo, Milles Davis, Oscar Peterson, Mingus, mas a bossa nova era uma coisa moderna e era música brasileira.

Chediak: Foi aí que você ganhou seu primeiro violão?
Chico: Não me lembro... Acho que me apropriei do violão da Miúcha.

Chediak: E você se lembra dos primeiros acordes que fez? Para mim, isso foi o máximo. Era uma música de Dolores Duran. Mas é você o entrevistado. Como foi isso?
Chico: A gente começava a procurar acordes. Eram horrorosos, mas a gente achava que estava bom. Talvez por incapacidade de reproduzir os acordes do João Gilberto, comecei a inventar, a compor. Tentava fazer uma música parecida com a que ouvia o João tocar. Mas já sabia que não conseguiria fazer nada igual.

Chediak: Tocava pedaços de música, pedaços de harmonia.
Chico: Pedaços. Pulando uma escala, pulando um degrau, comecei a fazer minhas músicas. Como não conseguia reproduzir, imitava.

Chediak: Já compunha com letra?
Chico: Com letra. Antes disso, já escrevia bastante nos jornais do colégio. Em Roma, na escola americana, escrevia em inglês. Lembro de um bilhete da professora, que guardei até pouco tempo (deve estar guardado em algum lugar), que dizia: "Um dia, ainda vou ler alguma coisa escrita por Francisco Buarque de Hollanda."

Chediak: Você se lembra da sua primeira música?
Chico: Primeira, primeira, não sei, mas me lembro de uma chamada Anijinho de papel e de outra com o nome de Canção dos olhos.

Chediak: Você tinha o quê, 17, 18 anos?
Chico: Por aí. Me lembro de ter cantado essas músicas num showzinho do colégio em que estudava, o Santa Cruz.

Chediak: Tocava violão e cantava?
Chico: Tocava e cantava. Aliás, eu disse que não tocava outras músicas, mas isso era bem no comecinho, mas, na verdade, forçando um pouquinho a memória, me lembro de ter cantado naqueles showzinhos Primavera e Minha namorada. Em São Paulo, um sujeito que soubesse tocar bossa nova numa festa fazia o maior sucesso. Naquela época, eu passava as férias no Rio. Me lembro de uma vez, em Petrópolis, eu via tantas pessoas tocando e me dei conta de quanto eu não sabia de violão. Outra vez, na praia de Ipanema, em frente ao Country, comecei a tocar e apareceu o Nelsinho Mota e tirou o violão da minha mão antes da música acabar: "Espera aí, tem um camarada que toca..." Acho que era ele mesmo ou alguém que tocava melhor do que eu. Ele tinha acesso a essa gente toda. Nunca falei com ele desse episódio. Foi em 1961, por aí.

Chediak: Você tinha um amigo que tocava bem, não tinha?
Chico: Tinha, o Olivier, que aprendeu junto comigo mas era mais aplicado do que eu. A gente trocava informações e ele me passava uns acordes. Dando um pulo no tempo, me lembro de fazer um acorde e João Gilberto me dizer: "Não faz assim. Faz esse aqui."

Chediak: Ele freqüentava a sua casa?
Chico: Freqüentava. Mas foi depois. Por isso, dei um pulo no tempo. Já havia gravado Pedro Pedreiro, meu primeiro disco. Antes disso, não tinha quem me ensinasse. Eu vinha ao Rio, via as pessoas tocando e me dei conta de que estava atrasado. Em São Paulo, dava pra enganar com aqueles acordes, mas no Rio não dava. Aí, fui prestando atenção. Depois, conheci Toquinho, que havia estudado com Paulinho Nogueira e sabia violão. Olhava quando ele tocava e fui aprendendo alguma coisa.

Chediak: Vamos às suas primeiras músicas. Quais foram elas?
Chico: Já falei de Anjinho de papel, da Canção dos olhos e havia também uma marchinha que eu tocava nos shows estudantis em São Paulo, a Marcha para um dia de sol, gravada por uma cantora paulista muito boa, Maricenne Costa. Depois, fiz Sonho de um carnaval, que concorreu no festival da TV Excelsior, em 1965, cantada por Geraldo Vandré, com arranjo do Erlon Chaves. Foi aquele festival que Edu Lobo e Vinicius de Moraes venceram, com Arrastão, cantada por Elis Regina. Minha música não ganhou nada, mas foi classificada para a final, o que recebi como uma vitória. Também me lembro de ter participado de uma novela do Roberto Freire na televisão. Era uma novela com Eva Vilma e John Herbert. Eu era o garoto que aparecia numa festa para tocar bossa nova. Cantei uma daquelas bossas novas que fazia na época, chamada Teresa tristeza, que até Eduardo Conde gravou mais tarde. Mas era uma canção amadora, que fiz antes de Sonho de um carnaval.

Chediak: No seu primeiro disco, você gravou Sonho de um carnaval e Pedro Pedreiro.
Chico: Isso mesmo. Quando fiz Pedro Pedreiro, tive a sensação de que pela primeira vez estava compondo uma música realmente minha, que já não era mais imitação de bossa nova. Daí em diante, as coisas começaram a acontecer.

Chediak: Sonho de um carnaval é uma música original, Chico.
Chico: Mas eu achava Pedro Pedreiro mais original. Cantei essa música num programa de auditório da Rádio América e, quando cheguei naquele trecho, "esperando o sol, esperando o trem", alguém fez uma imitação do apito do trem que quase me derrubou. De qualquer maneira, a música chamou a atenção de alguém e fui convidado para gravar um compacto simples na RGE, ainda uma pequena gravadora de São Paulo. Naquela época, havia muitos shows estudantis e eu era convidado a participar. Havia um radialista em São Paulo, Válter Silva, o Pica-pau, que apadrinhou a gente. A gente era o Toquinho, o Taiguara, eu, uma cantora chamada Ivete, outra chamada Ana Lúcia. Começamos a cantar na primeira parte dos shows de bossa nova. Éramos nós, os amadores de São Paulo. Na segunda parte, era o pessoal do Rio.

Chediak: O disco fez sucesso?
Chico: Fez, principalmente em São Paulo, onde as músicas já eram conhecidas. Daí, fui contratado pelo TV Record e passei a cantar num esquema profissional. Logo depois, fui convidado para cantar num programa de televisão no Rio, num programa, aliás, que eu não tinha a menor idéia do que se tratava. Peguei um ônibus e vim para o Rio. Cantei e o apresentador elogiou a música. Era o Flávio Cavalcanti. Depois, alguém falou: "Fiquei com medo que ele quebrasse seu disco." Ele quebrava os discos com as músicas que não gostava. Eu não sabia disso, pois não via televisão. Na minha casa não se via televisão.

Chediak: Ele quebrou o primeiro disco do Martinho da Vila. Um mês depois, convidou o Martinho para o programa e disse que ele era o maior. Com que idade você passou a ver televisão?
Chico: A primeira pessoa a ter um aparelho de TV lá em casa foi a babá. Ela passou do rádio para a televisão na época dos festivais. A televisão dela passou a ser a televisão da casa.

Chediak: Quer dizer que, quando a televisão chegou à sua casa, você já era o Chico Buarque?
Chico: Estava começando a ser o Chico Buarque. Na Record, havia uma parada de sucessos chamada Astros do disco, que começava com os últimos colocados, os discos colocados em trigésimo lugar, trigésimo não sei quanto. Eu entrava assim: "Em vigésimo primeiro lugar, Pedro Pedreiro." Aos poucos, eu ia entrando nos outros programas, sempre para cantar Pedro Pedreiro. Já não agüentava mais.

Chediak: Depois, veio Vida e morte severina.
Chico: É verdade. Isso aconteceu em 1965. No ano seguinte, a peça venceu o Festival de Nancy.

Chediak: Em 1966, aconteceu muita coisa.
Chico: Logo no início do ano, Nara Leão saiu com três músicas minhas no disco dela. Aquilo foi muito importante pra mim. Ser gravado por Nara Leão era uma marca de qualidade. Ela era muito conhecida e muito prezada pelo repertório, pela descoberta de novos compositores que estavam esquecidos, como Cartola, Nélson Cavaquinho e Zé Kéti, e de gravar músicas de autores novos como Edu Lobo, Sidney Miller e eu. Naquele disco, havia três músicas minhas: Olê, olá, Pedro Pedreiro e Madalena foi pro mar.

Chediak: Eu tinha 16, 17 anos quando comecei a dar aula de violão e pegava as primeiras músicas para tirar a harmonia. Olê, olá me deu um trabalho danado. Há nela uma seqüência harmônica diferente de tudo, uma coisa muito original. Como foi que essa música saiu? Foi uma coisa intuitiva?
Chico: Muito intuitiva. Só podia ser, porque eu não tinha conhecimento teórico nenhum.

Chediak: Em 1966, você estourou com A banda.
Chico: Foi a música do festival da Record. Tirou o primeiro lugar, empatada com Disparada, do Téo de Barros e Vandré. Depois do festival, fui convidado para participar de um show com Odete Lara e MPB-4, na boate Arpège, dirigido por Hugo Carvana e Antônio Carlos Fontoura. E resolvi morar no Rio. Nasci no Rio, mas fui cedo para São Paulo. Meu apelido em São Paulo era Carioca. Antes de ser Chico Buarque, eu era o Carioca.

Chediak: Quando foi que você decidiu estudar música?
Chico: A partir do meu encontro com Tom Jobim, em 1967. Tom foi comigo à Lapa para comprar um piano que ele indicou. Era um piano do tipo armário. Comecei a tomar aulas com Vilma Graça.

Chediak: Eu me lembro disso. Ela dizia que você pegava tudo com muita rapidez.
Chico: Durante um ano estudei com ela e aprendi tudo o que sei sobre teoria. Claro que aprendi também lidando com meus parceiros músicos. Uma vez, fiz uma letra pro Toquinho, Lua cheia. E musiquei a poesia de João Cabral de Melo Neto em Vida e morte severina. Mas, normalmente, fazia letra e música. Achava que não precisava de parceiros. Comecei a fazer letra para o Tom, depois para o Francis Hime, para o Edu Lobo, isso tudo me acrescentou muito na música. Tom tinha a faculdade de ser um mestre sem ser didático. Pegava a sua música, colocava um acorde dele e falava assim: "Você é um craque, hem!" Ele rearmonizava. Se bem que me lembro muito do Tom também me dizer pra eu preservar de certa forma a minha "ignorância", ou seja, o que eu tinha de espontâneo, a minha intuição musical. Mas havia aquelas coisas que eu devia corrigir.

Chediak: Você falou pouco do festival de 1966.
Chico: Eu já cantava A banda para os amigos, nos botequins. Só não podia cantar em público. Nesse tempo, eu cruzava muito com Gilberto Gil, que morava em São Paulo e trabalhava na Gessy-Lever. A gente se encontrava quase sempre num bar na Galeria Metrópole. Gravei A banda antes do festival, mas o disco só saiu depois. Foi o meu primeiro long-play.

Chediak: Quando você ganhou o primeiro cachê imaginou que dava início à sua carreira profissional?
Chico: Era muito pouco para imaginar que poderia me manter com aquilo. Foi num show organizado por Pica-pau, em Campinas, que me rendeu 30 mil cruzeiros e alguma coisa. Era um dinheirinho muito bom para um estudante de arquitetura (na época, eu estudava arquitetura). Bem, bebi o cachê com os meus amigos. Já o meu o primeiro salário, na TV Record, era de 500 cruzeiros novos. Estou bem lembrado dele porque foi inteiramente aplicado no pagamento da primeira prestação de um carro, um fusquinha usado. Foram 10 ou 12 prestações. Era receber o ordenado e pagar as prestações. Continuava estudando arquitetura porque não tinha a veleidade de me tornar um profissional da música. Achava que aquele dinheiro que recebia servia apenas pra comprar um carrinho, um violão, pra pagar a cerveja, pra me divertir. Achava que música seria uma atividade passageira.

Chediak: Mesmo depois de Pedro Pedreiro e A banda?
Chico: Mesmo depois eu duvidava que aquilo fosse uma profissão duradoura.

Chediak: Mas com A banda você ficou superconhecido.
Chico: Foi o maior sucesso. Deu capa de revista, etc. e tal, meu salário aumentou e passei a fazer shows com muita freqüência. Comecei a viajar muito com o violão e o empresário. Geralmente, ia cantar em clubes no Brasil inteiro. O clube parava a dança, eu cantava meia hora com o violão e a dança voltava depois. Ganhava um dinheirinho, mas não era grande coisa.

Chediak: E o direito autoral?
Chico: Custei a receber. Ganhava na vendagem de discos, nos shows, na televisão, o que me permitiu comprar um pequeno apartamento no Leblon, além de um outro fusquinha, mas de primeira mão. Mas na época não existia ECAD [Escritório de Arrecadação e Distribuição Central]. Existiam as sociedades arrecadadoras e distribuidoras de direito autoral, que relutavam em aceitar um sócio novo, porque seria mais um a dividir o bolo. Quase um ano depois do lançamento de A banda é que ingressei na UBC [União Brasileira de Compositores].

Chediak: Quando foi que você decidiu deixar a arquitetura?
Chico: No terceiro ano da faculdade. Eu não sabia o que ia ser. Tinha uma vaga idéia de ser jornalista, porque gostava de escrever. Pensei também em ir para o Itamaraty. Achava que lá as pessoas bebiam e faziam músicas e poesias.

Chediak: Por causa do Vinicius, talvez.
Chico: Por causa do João Cabral também. Mas eu gostava muito de arquitetura, como gosto até hoje. Além do mais, havia todo aquele entusiasmo por Brasília, por Oscar Niemeyer. Só não queria ser arquiteto.

Chediak: Tom Jobim também estudou arquitetura e abandonou a faculdade. Falar nisso, como foi seu encontro com ele?
Chico: Quem me levou na casa dele foi Aloysio de Oliveira, dono da gravadora Elenco. Aliás, o sonho da gente era ser artista da Elenco, mas eu já tinha contrato com a RGE. Na época, Aloysio era casado com a Cyva, do Quarteto em Cy, e foi ele quem produziu o disco delas cantando Pedro Pedreiro. Aloysio gostou das minhas músicas e tinha aquele coisa generosa, gostava de ajudar, e me levou ao Tom Jobim. Isso foi antes da Banda. Cantei Pedro Pedreiro para o Tom. A partir de 1967, a gente ficou parceiro. A primeira letra que fiz para ele foi para uma música já gravada, chamada Zíngara. Com a letra, ganhou o nome de Retrato em branco e preto. Vinicius estimulou muito a parceria. Mas eu achava que era um risco muito grande fazer letra para Tom, até porque a minha única experiência de letrista para música pronta tinha sido para Lua cheia, de Toquinho. Compor com Tom foi uma coisa que me deu trabalho mas muito orgulho também. Era o máximo ser parceiro dele. Para mim, era a glória.

(continua)

12:48 PM

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Quinta-feira, Agosto 19  


DUAS CRÔNICAS





Meus 12 minutos de fama

O Globo - 18/06/2004

Leonardo Aversa


Meus encontros com Chico são sempre um exercício de sadismo. Ele detesta ser fotografado. O que me faz sentir como macaco em loja de louça. Prometo que, desta vez, vou ser mais rápido ( quatro anos atrás, demorei 15 minutos). Quem sabe agora, com tecnologia digital? Marcamos na Praia do Leblon, em frente ao Marina. Quando chego, ele está parado, distribuindo autógrafos. Anda todo dia por lá e sabe que o segredo é não parar. O carioca é blasé, mas resistir ao Chico parado, de bobeira, já é demais. Todos querem tirar foto do lado, pedir autógrafo, homens, mulheres, crianças, cachorros e papagaio. Todo mundo ali com cara de bobo, olhando para ele. Inclusive eu. Se é verdade que Deus não dá asa a cobra, ele deveria ser chato e grosso. E arrogante. Mas não. Fica pacientemente ali, atendendo um por um. Para tentar me enturmar, pergunto como é a sensação de completar 60 anos. "É uma desgraça", responde sorrindo. Fico pensando na passagem do tempo, na inexorabilidade do fim etc. Só depois me dou conta que a desgraça a que ele se refere é o assédio por conta da efeméride. Minhas fotos, por exemplo.

Tenho menos de dez minutos antes de ele começar a pensar em suicídio. Peço pro Chico andar pela beira do mar. Ele está ótimo, mais magro do que há quatro anos. O vento forte cola a roupa no corpo. O assessor de imprensa pergunta se isso não vai sugerir um princípio de barriga. A maioria das pessoas ao ouvir um comentário desses se ajoelharia clamando a Deus para parar com o vento, ou a mim por um retoque no computador. O Chico, não, o Chico acha graça. E continua andando, rápido. Não sei se ele está posando ou fugindo. Na dúvida, peço pra ele voltar. Ele atende e já volta perguntando se acabei. Tinha guardado os últimos dois minutos para um comentário inteligente, mas achei melhor aproveitar o tempo para mais fotos. Quem sabe daqui a quatro anos eu invento algo. Termino a sessão e ele vai embora, aliviado. Foram 12 minutos.




É o maior! É o maior! É o maior!
Folha de São Paulo - Junho/2004

Danuza Leão
Colunista da Folha


Encontrar Chico Buarque em algum lugar -qualquer lugar- cria sempre uma tensão. Mesmo nunca tendo visto Chico, todo mundo sabe quem ele é, acha que conhece e, num momento de distração e deslumbramento, cumprimenta (mas poucos ousam pedir seu autógrafo). Há os que nem olham, para fingir que estão respeitando sua privacidade, mas é impossível ignorar a presença de Chico.
Quando ele chegou ao Rio vindo de São Paulo, ainda garoto, freqüentava o Antonio's, que era o segundo lar dos boêmios da cidade; sentava com os amigos e durante a madrugada era o troca-troca de mesa -como todo mundo, aliás.

Nesse tempo, no Rio, os shows brotavam assim, do nada: uma noite era na Faculdade de Arquitetura, outra, num teatro meio abandonado, e houve uma no colégio Sacré Coeur de Marie, onde Chico cantou. Os brotinhos babaram, mas ele saiu correndo apavorado.

Quando começou a se profissionalizar, morou na rua Prado Jr., uma espécie de Boca do Lixo do Rio, para ficar perto da boate Arpège, uma muvuca onde se apresentava. D. Maria Amélia, sua mãe, achava a boate chiquíssima, talvez por causa do nome.

Seus amigos são verdadeiros anjos de guarda e construíram uma sólida proteção em volta do seu ídolo. Se alguém pergunta a algum deles de que cor são os olhos de Chico, vai ouvir um "não sei". E tem filhos? Não sabem. É compositor? Também não sabem, nunca ouviram falar: fidelidade é isso aí.

Segundo Ruy Guerra, Chico não existe, é ficção, e bem que pode ser. Ele é um mistério: nem precisa dar entrevistas, pois todo mundo sabe o que pensa, o que acha de quase tudo e em quem vota. Sorri muito, mas não fala: para escutar sua voz, só ouvindo um CD.

Chico foi responsável por grandes paixões e dores de cotovelo que pareciam eternas, quando as moças ouviam suas canções. Quem não cantou baixinho "mas devo dizer que não vou lhe dar o enorme prazer de me ver chorar"? Ou: "Deixa em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa", "e quantas águas rolaram, quantos homens me amaram bem mais e melhor que você"? Qual a mulher que não amou, sofreu, deu a volta por cima e se vingou, ouvindo e cantando Chico? Qual?

Ele nunca foi de sair muito, freqüenta pouquíssimos restaurantes, onde só é visto jantando com a ex, Marieta, e uma das filhas, joga futebol no estádio Vinicius de Moraes, seu campo particular, e continua fiel às suas preferências do tempo em que morou na Itália: massas e grapas. Campeão de futebol de botão, Chico modernizou-se e agora passou para os videogames - de futebol, é claro.

Está fazendo 60 anos, e nenhuma mulher do mundo trocaria ele por dois de 30.

Chico lindo, Chico dono dos olhos cor de ardósia mais bonitos do mundo, Chico sensível, Chico feminista, Chico machista, Chico que finge que não olha pra mulher nenhuma, Chico sonso, Chico moita, Chico tudo.

postado por kk

6:19 PM

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ALGUNS DEPOIMENTOS




Alain Fresnot,
diretor de cinema,
setembro de 1998


"Algumas coisas me chamaram a atenção no trabalho com o Chico:

- a facilidade e rapidez com que ele topou fazer o filme (Ed Mort), só tendo visto um curta meu, se dispondo a trabalhar num filme de pobre e ainda por cima, cedendo uma música;

- a emoção das mulheres da produtora, secretárias, telefonistas, todas, enfim, quando ele ligou e o tempo que levou para a "poeira" baixar depois do telefonema;

- a leveza do andar, o pisar macio no set, coisa de profissional. Indo e vindo da locação ao trailler, do trailler para a locação, só quando necessário à filmagem. Certamente, herança de Quando o carnaval chegar.

- a sensação desagradável de não ter podido parar, nem por uns minutos, para conversar, pelo delírio absoluto de fazer um filme maior que as pernas, 18 horas por dia;

Por fim, um ano e meio depois, num lançamento de livro, não consigo me aproximar. O Chico, cercado de fãs e jornalistas, consegue me ver e, por sobre as cabeças, pergunta: "Como está o nosso filme?" Não deu tempo de explicar, mas espero ter correspondido a confiança depositada."


Antonio Candido,
professor
e crítico literário


"Chico Buarque é uma grande consciência inserida em um enorme talento."


Bibi Ferreira,
atriz,
setembro de 1998


"Compositor, dramaturgo, escritor, poeta e laureado por todos estes dons, escreve a mais importante obra da dramaturgia brasileira que é Gota d'água, com os mais impressionantes diálogos da realidade brasileira. Situa solilóquios que são verdadeiras jóias para a representação de um ator. Sem contar as músicas e letras que expressam e contam de forma absurdamente concreta a história de Gota d'água. Chico Buarque, além de tudo é um homem belo e bom."


Cacá Diegues, cineasta,
setembro de 1998


"O Chico é um príncipe da Música Popular Brasileira e é mais do que um privilégio, é uma honra, poder trabalhar com ele. As trilhas musicais dos três filmes que eu produzi e que tiveram a contribuição dele, Bye bye Brasil, Quando o carnaval chegar e Joana francesa tiverem um resultado excepcional. São músicas que ficaram para sempre. Trabalhar com o Chico é muito fácil e gratificante porque ele compreende muito rapidamente as propostas apresentadas. É um homem muito inteligente e realiza maravilhosamente bem o que lhe é solicitado. Eu só posso é agradecer ao Chico de ter sempre aceito os meus pedidos e me sentir honrado com isto."


Dona Neuma da Mangueira,
setembro de 1998


"Eu acho que o Chico é uma pessoa querida, não só por nós da Mangueira, mas pelo mundo todo. Ele revolucionou o mundo do samba. Eu o vi iniciando sua vida como cantor e compositor, e depois, sendo banido da cidade. E ele não se abateu. A vida ensinou ele a viver. Por isto é bom. Por isto é amigo. Ele fez tudo para nos ajudar e fez de coração. Muito obrigada, Chico, por tudo que você nos representa e que Deus lhe dê tudo de bom. Muita saúde, muita paz e que você continue a ser o homem bom que você é."


Edu Lobo,
cantor e compositor,
setembro de 1998


"Nossas parcerias, nossas composições, quase tudo, com exceção de duas músicas, sempre têm patrão, são encomendas para teatro, balé, musical, cinema. Fizemos mais de 30 músicas com este destino. O que eu acho interessante é que apesar de serem encomendas, são músicas que nos servem depois e vão ficando conhecidas lentamente pelo nosso público. Construímos um certo baú musical, onde podemos gravar estas canções ao longo dos anos. Elas são músicas independentes. Foram duas únicas músicas, Moto contínuo e o samba Nego maluco, que não tiveram patrão, e agora estamos envolvidos em outro trabalho. Nosso atual patrão se chama Miguel de Faria Júnior, que está montando seu novo filme e nos encomendou a música Forró bodó, que está quase pronta. Esta é a mais recente parceria com o meu amigo Chico."


Fernando Morais,
jornalista e escritor,
outubro de 1998


"Chico Buarque é, de longe, o melhor da nossa geração. É um privilégio ser contemporâneo dele."


Fernando Peixoto,
diretor de teatro,
outubro de 1998


"Chico Buarque sempre foi e continua sendo um fascinante e surpreendente exemplo de intensa criatividade política e também de permanente coerência cultural e ideológica. Surpreende sempre, porque está em constante preocupação de transformar e transgredir seu próprio trabalho, nunca repetindo fórmulas ou temas. Tenho por ele uma grande admiração e uma grande amizade já há muitos anos. Mas foi, sem dúvida, em 1973 que nosso cotidiano e nossa vidas estiveram mais entrelaçadas, quando atravessamos juntos momentos de alegria e dor: Chico e Ruy Guerra me convidaram para dirigir Calabar - o elogio da traição, peça que eles haviam escrito juntos, e estávamos às vésperas da estréia, no Rio de Janeiro, quando em novembro daquele ano a violência repressiva da ditadura militar proibiu o espetáculo, que só conseguiu ser encenado, numa segunda versão, bastante diferente da primeira, em 1980, em São Paulo. Chico Buarque é, sem dúvida, um marco essencial no panorama artístico e cultural de nossos dias, com uma obra múltipla e expressiva que revela sempre encanto e profundidade, tanto enquanto básico e compositor, como enquanto escritor de romances, crônicas ou peças de teatro. Um artista e intelectual que sempre se posicionou em defesa da liberdade, de um mundo melhor, dos valores democráticos e nacional-populares."


Gal Costa,
cantora,
setembro de 1998


"Eu adoro cantar as músicas do Chico, é sempre maravilhoso. Eu me identifico muito com suas canções. Ele é um dos meus compositores favoritos. Gosto de todas as suas músicas, mas, em especial, a que eu canto com mais prazer, é Futuros Amantes, que eu gravei em meu disco Mina d'água do meu canto."


Jô Soares,
humorista,
setembro de 1998


"Vez por outra Deus força a mão e cria um talento único.
Quando a este talento se unem a inteligência e a sensibilidade, mesclando o artista ao intelectual, a coragem ao humor e a cultura aos olhos verdes, 'aí, então, é preciso ter cuidado,' como diria Vinícius, porque o efeito é quase insuportável. Por isso é que já tem criança dizendo: 'Mamãe, quando eu crescer, quero ser Chico Buarque'."


Júlio Bressane,
diretor de cinema,
setembro de 1998


"A minha admiração é pelo homem, pela pessoa, pelo temperamento, pelo caráter e não só pelo lado profissional do Chico. Mesmo não sendo um amigo íntimo, tenho um profundo respeito e admiração por ele. A confirmação de toda esta minha impressão foi a participação gratuita dele no filme O mandarim. A generosidade dele no papel de Noel foi impressionante. Houve dedicação e disciplina na interpretação do personagem. Mostrou criatividade quando apareceu por conta vestindo o uniforme do tricolor. Foi uma honra para mim ter esta aproximação artística com alguém que eu gosto tanto."


Marília Pera,
atriz,
setembro de 1998


"Ele é meu contemporâneo. Suas músicas embalaram meus sonhos românticos de juventude. Lembro-me do dia seguinte ao espancamento feito pelo Comando de Caça aos Comunistas... o Chico foi abrir a peça (Roda Viva) falando timidamente algumas palavras. Aquilo nos deu muita força. Entrei no elenco desta peça por acaso, para substituir a Marieta Severo. Só desfilei na Mangueira no carnaval de 98 por causa do Chico, porque senão não iria. A poesia do Chico toca na alma da mulher. Na alma feminina. Não sei como ele consegue isto. Resumindo: eu amo o Chico Buarque de Hollanda e o que ele representa, não só para a cultura, mas também para a vida deste país."


Miguel Faria Jr.,
diretor de cinema,
setembro de 1998

Sobre a trilha e o roteiro (de Chico Buarque) do filme
Para viver um grande amor, de Miguel Faria Jr

"É um dos casos onde o roteiro é melhor que o filme. A adaptação feita por Chico, da obra de Vinícius, para o filme Para viver um grande amor, é ótima. A trilha é maravilhosa, uma istória baseada na pobre menina rica. O Chico soube fazer isto muito bem."


Milton Nascimento,
outubro de 1998


"Sempre houve uma lenda mal contada de que o Chico era um ótimo poeta, letrista, mas que as músicas não eram tão fortes e, como cantor, a mesma coisa.
Ledo engano daquelas pessoas.
Eu sempre fui contra esse tipo de preconceito a respeito dele.
As suas músicas são de uma riqueza fantástica. Acho que até ele não se dava o devido valor, dentro de sua timidez e simplicidade. Lembro-me de ouvi-lo tocar ao violão umas coisas que nos discos me soavam diferentes. Os maestros queriam "consertar" suas harmonias e nunca chegaram sequer aos pés das originais. Falei para ele nunca deixar que ninguém mexesse nas suas músicas, de maneira alguma. Além da poesia, ele é um tremendo compositor de música.

E outra coisa que descobri, quando gravamos ou pisamos em palcos juntos, é que ele é um grande intérprete. É muito bom cantar junto com ele, dividir as partes. O Chico tem uma divisão só dele, levanta o astral da gente nos duetos.

Não estou falando assim prá puxar seu saco, pois ambos não precisamos disso. Falo de cadeira. E como amigo, é um sucesso.

Adoro esse rapazinho! Viva Chico!"


Ruy Guerra,
cineasta e escritor,
outubro de 1998


Chico de Hollanda, de aqui e de de alhures
"Parceiro de euforias e desventuras, amigo de todos os segundos, generosidade sistemática, silêncios eloqüentes, palavras cirúrgicas, humor afiado, serenas firmezas, traquinas, as notas na polpa dos dedos, o verbo vadiando na ponta da língua - tudo à flor do coração, em carne viva... Cavalo de sambistas, alquimistas, menestréis, mundanas, olhos roucos, suspiros nômades, a alma à deriva,
Chico Buarque não existe, é uma ficção - saibam.

Inventado porque necessário, vital, sem o qual o Brasil seria mais pobre, estaria mais vazio, sem semana, sem tijolo, sem desenho, sem construção."


Oscar Niemeyer,
arquiteto e urbanista,
outubro de 1998


"É bom falar do Chico Buarque. Do seu talento extraordinário. Da coragem e dignidade invariáveis com que se comporta diante da vida e dos homens."


Toquinho,
cantor e compositor,
novembro de 1998


"Chico Buarque é o jeito mais digno de fazer música brasileira"


postado por kk

2:30 AM

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Quarta-feira, Agosto 18  



AS MULHERES DE HOLLANDA





Quantas mulheres quiseram - ou querem - ser a Rita, a Rosa, a Cecília de Chico Buarque? Também, como resistir a um Eu Te Amo tão ardoroso como o de Chico? "Se nos amamos feito dois pagãos/ Seus seios ainda estão nas minhas mãos/ Me explica com que cara eu vou sair...". Pois é. Não foram só os olhos azuis e o ar de bom moço que fizeram de Chico um dos compositores mais queridos pelas brasileiras. Sua obra, de fato, se aproxima demais da sensibilidade feminina, inclusive assumindo (e defendendo!) muitas vezes o ponto de vista da mulher nas relações amorosas.

Nana Caymmi declarou segura: "Com aquele grau de elaboração dos sentimentos, com aquela cultura alta e despida de machismo, Chico costuma fazer coisas muito mais voltadas ao universo feminino e, por isso, vive rodeado de mulheres". Não é à toa que, segundo ela, muitas cantoras "abusaram" dele nos pedidos de canções para seus repertórios.

Elba Ramalho foi mais longe "Ainda que eu tenha pessoas muito afins com minha origem, ele, que não vem do nordeste, é compositor que mais me toca. Aliás, para mim, ele é o maior de todos os tempos". As palavras de Elba ganharam eco nas de outra grande intérprete de sua obra, Elza Soares.

Elza conhece Chico Buarque desde os tempos em que moravam na Itália e ele vivia colado em seu marido Mané Garrincha. "Eu tenho uma paixão, uma verdadeira idolatria pelo Chico, tanto que, quando ele chegou para gravarmos Façamos [faixa contida em Duetos], pedi logo para registrarmos a ocasião, tirando montes de fotos juntos, que nem uma daquelas fanzocas chatérrimas", disse ela com sua ternura espalhafatosa.


site: http://www.dcomercio.com.br/especiais/chico/mulheres.htm

postado por kk

12:05 AM

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Terça-feira, Agosto 17  







JULINHO
DA ADELAIDE


Julinho da Adelaide nasceu quando Chico Buarque passou a ser muito conhecido entre os censores do regime militar, na década de 70. Suas músicas eram proibidas somente porque levavam sua assinatura. A saída para burlar a censura foi a criação de um heterônimo. E deu certo. Acorda amor, Jorge maravilha e Milagre brasileiro passaram pela censura sem maiores problemas. Julinho chegou até a dar uma entrevista para o jornal Última Hora sobre sua carreira em ascensão. O jornalista e escritor Mário Prata, que o entrevistou em 1974, relembra esse episódio no artigo abaixo. A entrevista publicada contém apenas parte do que você pode ler na transcrição integral da fita que a originou.

Julinho de Adelaide, 24 anos depois
Depoimento de Mário Prata


Eu me lembro até da cara do Samuel Wainer quando eu disse que estava pensando em entrevistar o Julinho da Adelaide para o jornal dele. Ia ser um furo. Julinho da Adelaide, até então, não havia dado nenhuma entrevista. Poucas pessoas tinham acesso a ele. Nenhuma foto. Pouco se sabia de Adelaide. Setembro de 74. A coisa tava preta.

- Ele topa?

- Quem, o Julinho?

- Não, o Chico.

O Chico já havia topado e marcado para aquela noite na casa dos pais dele, na rua Buri. Demorou muitos uísques e alguns tapas para começar. Quando eu achava que estava tudo pronto o Chico disse que ia dar uma deitadinha. Subiu. Voltou uma hora depois.

Lá em cima, na cama de solteiro que tinha sido dele, criou o que restava do personagem.

Quando desceu, não era mais o Chico. Era o Julinho. A mãe dele não era mais a dona Maria Amélia que balançava o gelo no copo de uísque. Adelaide era mais de balançar os quadris.

Julinho, ao contrário do Chico, não era tímido. Mas, como o criador, a criatura também bebia e fumava. Falava pelos cotovelos. Era metido a entender de tudo. Falou até de meningite nessa sua única entrevista a um jornalista brasileiro. Sim, diz a lenda que Julinho, depois, já no ostracismo, teria dado um depoimento ao brasilianista de Berkely, Matthew Shirts. Mas nunca ninguém teve acesso a esse material. Há também boatos que a Rádio Club de Uchôa, interior de São Paulo, teria uma gravação inédita. Adelaide, pouco antes de morrer, ainda criando palavras cruzadas para o Jornal do Brasil, afirmava que o único depoimento gravado do filho havia sido este, em setembro de 1974, na rua Buri, para o jornal Última Hora.

Como sempre, a casa estava cheia. De livros, de idéias, de amigos. Além do professor Sérgio Buarque de Hollanda e dona Maria Amélia, me lembro da Cristina (irmã do Julinho, digo, Chico) e do Homerinho, da Miucha e do capitão Melchiades, então no Jornal da Tarde. Tinha mais irmãos (do Chico). Tenho quase certeza que o Álvaro e o Sergito (meu companheiro de faculdade de Economia) também estavam.

Quem já ouviu a fita percebeu que o nível etílico foi subindo pergunta a resposta. O pai Sérgio, compenetrado e cordial, andava em volta da mesa folheando uma enorme enciclopédia. De repente, ele a coloca na minha frente, aberta. Era em alemão e tinha a foto de uma negra. Para não interromper a gravação, foi lacônico, apontando com o dedo:

- Adelaide.

Essa foto, de uma desconhecida africana, depois de alguns dias, estaria estampada na Última Hora com a legenda: arquivo SBH. Julinho não se deixaria fotografar. Tinha uma enorme e deselegante cicatriz muito mal explicada no rosto.

Naquelas duas horas e pouco que durou a entrevista e o porre, Chico inventava, a cada pergunta, na hora, facetas, passado e presente do Julinho. As informações jorravam. Foi ali que surgiu o irmão dele, o Leonel (nome do meu irmão), foi ali que descobrimos que a Adelaide tinha dado até para o Niemeyer, foi ali que descobrimos que o Julinho estava puto com o Chico:

- O Chico Buarque quer aparecer às minhas custas.

Para mim, o que ficou, depois de quase 25 anos, foi o privilégio de ver o Chico em um total e super empolgado momento de criação. Até então, o Julinho era apenas um pseudônimo pra driblar a censura. Ali, naquela sala, criou vida. Baixou o santo mesmo. Não tínhamos nem trinta anos, a idade confessa, na época, do Julinho.

Hoje, se vivo fosse, Julinho teria 55 anos. Infelizmente morreu. Vítima da ditadura que o criou.

Há quem diga porém que, como James Dean e Marilyn Monroe, Julinho estaria vivo, morando em Batatais, e teria sido ele o autor do último sucesso do Chico, A foto da capa. Sei não, o estilo é mesmo o do Julinho. O conteúdo então, nem se fala.

matéria retirada de http://www.chicobuarque.com.br/sanatorio/julinho.htm ...não deixem de ir lá para ler esta entrevista na íntegra, é o máximo!

postado por kk

12:14 AM

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Segunda-feira, Agosto 16  







Na comunidade do Chico, no orkut, foi feita a pergunta: "Qual o verso mais bonito do Chico"


"Me leva para sempre, Beatriz/ Me ensina a não andar com os pés no chão"

"Atrás de um homem triste há sempre uma mulher feliz, e atrás dessa mulher mil homens sempre tão gentis"

"Toda gente homenageia Januária na janela/ Até o mar faz maré cheia pra chegar mais perto dela."

"eu que soletro teu nome no escuro"

"A saudade é o revés de um parto, a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu"

"para onde vai o meu amor, quando o amor acaba?"

"te dei meus olhos pra tomares conta"

"Não chore ainda não, que eu tenho um violão..."

" Preciso não dormir até se consumar o tempo da gente/ preciso conduzir um tempo de te amar/ te amando devagar e urgentemente"

"Se na bagunça do teu coração/ Meu sangue errou de veia e se perdeu"

"te perdoo por te trair"

"Dei pra maldizer o nosso lar/ pra sujar teu nome, te humilhar e me vingar a qualquer preço/ te adorando pelo avesso"

"Se a guerra for declarada a rapaziada ganha na moral/ Se aliste, meu camarada/ A gente vai salvar o nosso carnaval"

"Faca como eu digo, faca como eu faco, aja duas vezes antes de pensar"

"... e me agarrei nos teus cabelos, nos teus pelos, teu pijama, nos teus pés ao pé da cama./ Sem carinho sem coberta, no tapete atrás da porta..."

"De que me vale ser filho da santa Melhor seria ser filho da outra/ Outra realidade menos morta/ Tanta mentira tanta força bruta"
(rimar "outra" com "bruta", para dizer "puta"... Fantástico!!)

"Me enbreagar até que alguém me esqueça"

"Que a saudade dói como um barco/ Que aos poucos descreve um arco/ E evita atracar no cais"

"Passas em exposição/ Passas sem ver teu vigia/ Catando a poesia/ Que entornas no chão"

" Deixa em paz meu coração que ele é um pote até aqui de mágoa/ e qualquer desatenção, faça não, / pode ser a gota d'agua"

"Eu faço samba e amor até mais tarde, e tenho muito sono de manhã."

"Talvez o mundo não seja pequeno,nem seja a vida um fato consumado./ Quero inventar o meu próprio pecado, quero morrer do meu próprio veneno"

"Sou bandida, sou solta na vida e sob medida pros carinhos seus./ Meu amigo, se ajeite comigo e dê graças a Deus!"

"Se nós, nas travessuras das noites eternas / Já confundimos tanto as nossas pernas / Diz com que pernas eu devo seguir"

"pai, afasta de mim esse cálice...(cale-se)"

"Vou colecionar mais um soneto, outro retrato em branco e preto a maltratar meu coração."

"Pro aconchego da pele na pele, da carne na carne entender, que homem é feito direito, do jeito que é feito o prazer"!

"Pela fumaça, desgraça que a gente tem que tossir..."

"Amavam o amor proibido/ Pois hoje é sabido/ Todo mundo conta/ Que uma andava tonta/ Grávida de lua/ E outra andava nua/ Ávida de mar"

"E quem me vê apanhando da vida duvida que eu vá revidar..."

"Disfarçar as pistas de que um dia ali já foi feliz.../ Criar raiz e se arrancar"

" Depois de te perder, te encontro com certeza; talvez no tempo da delicadeza..."

"você não gosta de mim, mas sua filha gosta"

...dormia, a nossa pátria mãe tão distraída sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações...

"Quero ficar no seu corpo feito tatuagem/ Que é pra te dar coragem, pra seguir viagem quando a noite vem... "

"Diz quantos desastres tem na minha mão/ Diz se é perigoso a gente ser feliz"

"Rodava as horas pra trás/ Roubava um pouquinho/ E ajeitava o meu caminho/ Pra encostar no teu"

" quero perder de vez sua cabeça, minha cabeça perder seu juízo..." -

"Não sei se é vida real/ Um invisível cordão/ Após o salto Mortal"

" Quem brincava de princesa, acostumou com a fantasia..."

" Agora eu era heroi, e meu cavalo só fala inglês... e você era a princesa que eu quis coroar, que era tão linda de se admirar, que andava nua pelo meu país..."

"Ai, o amor/ Jamais foi um sonho/ O amor, eu bem sei/ Já provei/ E é um veneno medonho..."

"Eu andava pobre, tão pobre de carinho, que de tolo até pensei que fosses minha."

"Ele fala de cianureto/ Ela sonha com formicida/ Vão viver sob o mesmo teto/ Até que alguém decida"

"Eu semeio vento na minha cidade/ Vou pra rua e bebo a tempestade"

"Errou na dose, errou no amor/ Joana errou de João, ninguém notou/ ninguém falou na dor que era o seu mal/ a dor da gente não sai no jornal"

"inútil dormir que a dor não passa"

"quem espera nunca alcança"

" ... eu quero te contar das chuvas que apanhei/ Das noites que varei no escuro a te buscar/ Eu quero te mostrar as marcas que ganhei nas lutas contra o REI/ Nas discussões com DEUS,..."

"A dor é tão velha que pode morrer "

"Eu descartava os dias que não te vi"

"Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito/ Exijo respeito/ não sou mais um sonhador"

"O que é que eu faço contra o encanto/ desse amor que eu nego tanto/ evito tanto/ e que, no entanto/ volta sempre a enfeitiçar? "

"Eu levo a carteira de identidade /E a leve impressão de que já vou tarde"

"Junto a mim morava minha amada/ Com olhos claros como o dia/ Lá o meu olhar vivia/ De sonho e fantasia/ E a dona dos olhos nem via."



Postado por kk

12:15 PM

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Domingo, Agosto 15  






CONSTRUÇÃO/DEUS LHE PAGUE (Chico Buarque)


Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

DEUS LHE PAGUE

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair
Deus lhe pague

Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas-bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague



Para mim Construção é a obra prima do Chico.
Sua música mais densa, a que descreve com mais exatidão os danos da máquina capitalista alheia à classe operária.

Construção descreve o homem que cumpre sua rotina sempre idêntica, sempre mecanizada, acimentada, emparedada, massacrante. Operário que, tijolo com tijolo, constrói seu desenho mágico, seu bêbado rabisco de vida.

A música acompanha o mesmo ritmo dos versos, que são acentuados em todos as terminações por uma palavra proparoxítona, para que a rotina fique definitivamente marcada. Chico, gramaticalmente, traduzinho sua mensagem exata.

A morte do operário atrapalha o tráfego. A queda da construção incomoda os que não percebem nada além dos seus próprios umbigos.

O operário comete uma indecente infração, foi imoral, morreu na contramão atrapalhando o sábado.


Construção, assustadoramente perfeita!
Deus lhe Pague, Chico!


postado por kk -
Quem tiver o média player clicando no pluguin do lado esquerdo a música deve iniciar. Se não funcionar vá no média player, abra ferramentas, opções, tipos de arquivos, marque todas as janelinhas. Espero que funcione para todas.





Chico me comove, muito, me enche os olhos de poesia e de lágrimas... lembrar de tanta coisa linda que ele compôs me sacode, e me enternece... Grande Chico!

PEDAÇO DE MIM (Chico Buarque)

Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar
Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi
Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Leva os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus


postado por Xuxu


2:28 AM

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Sexta-feira, Agosto 13  







Todas as aberturas dos jogos olímpicos nos emocionam, mas não consigo lembrar de nenhuma outra tão forte quanto esta de hoje. Somado à inevitável emoção dos jogos terem se iniciado na Grécia, e todos estarem envolvidos por esta marca histórica, o espetáculo da abertura foi de uma grandeza impressionante, absolutamente indescritível.

O estádio de Atenas magnificamente iluminado, lotado de pessoas ombro a ombro unidas pelo espírito olímpico, envoltas nos anéis de paz. No chão da gigantesca arena olímpica, o mar, simbolizando o início da humanidade, sobrevoado por figuras mitológicas, a música perfeita, os fogos na quantidade e nos momentos exatos, Eros flutuando, unindo todos através do amor.

As 201 delegações desfilando em suas cores orgulhosas. Os brasileiros, que são adorados pelos gregos, ovacionados distribuindo alegria. Coréia do Norte e do Sul recusando as brigas políticas e optando por desfilarem juntas, em uma só bandeira, branca e azul. O recado real do esporte acima, muito acima, das disputas sem nexo.

Quem não viu ao vivo, certamente terá oportunidade de ver em reprises, mas vejam do início ao fim, não percam nada, porque foi um espetáculo de rara beleza e impossível de ser descrito. Sentir, só sentir esta abertura olímpica digna de aplausos eternos.

A tecnologia de última geração usada para dar traduzir a simplicidade da paz.


postado por kk


8:00 PM

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